terça-feira, 14 de abril de 2026

12 Homens em fúria ou como argumentar com homens furiosos

 “Doze Homens em Fúria” (“12 Angry Men”), de Sidney Lumet (1957) 

Quem, num júri de desconhecidos fechados numa sala de onde a maioria tem pressa de sair, se atreveria a impedir uma votação unânime para expor um ponto de vista, uma impressão, diferente dos outros 11?

Crítica de Aurélio Moreira in Jornal Público a 6 de Outubro de 2012

https://www.publico.pt/2012/10/06/p3/noticia/doze-homens-em-furia-12-angry-men-de-sidney-lumet-1957-1814776


Parece redundante, hoje em dia, procurar a companhia de pessoas furiosas, quando elas são tantas, por todo o lado – em casa, na rua, no trabalho, no desemprego, nas repartições de Finanças – mas é sempre curioso descobrir que as há ou houve por outras razões que não o empobrecimento rápido e forçado dos cidadãos para pagar as contas caóticas do Estado. As de que fala o filme de que falamos hoje são as 12 – apenas homens – que têm por dever reunir-se numa sala de tribunal, em Nova Iorque, para decidir se um rapaz de 18 anos é culpado de ter assassinado o próprio pai, condenando-o, se for essa a decisão, à morte na cadeira eléctrica.


O caso é simples, a decisão será rápida, prática, impessoal, burocrática, cada um cumprirá o seu dever ou, pelo menos, obterá a sensação do dever cumprido e seguirá a sua vida, excepto, muito provavelmente, o primeiro interessado nos resultados do procedimento, ou seja, o que lhe sofrerá as consequências. E seria assim – como, normalmente, é – se não houvesse um obstáculo: um dos 12, apenas um, que não está convencido da aparente simplicidade do caso nem da ligeireza com que se pode mandar legalmente matar alguém. E pede alguns minutos de ponderação e de partilha das dúvidas que na sua consciência subsistem, antes da condenação que parece inevitável daquele jovem criminoso ou inocente.

Mas quem, num júri de desconhecidos fechados numa sala de onde a maioria tem pressa de sair, se atreveria a impedir uma votação unânime para expor um ponto de vista, uma impressão, diferente dos outros 11? Não se trata de se pôr à frente de um tanque de guerra nem de correr em campo aberto debaixo de fogo inimigo, mas quem se atreveria? E quem é esse homem? E que acção pode ter sobre os outros?

É essa descoberta gradual que é fascinante. Anulado o factor de distracção em regra introduzido pelo cenário, restam os tipos humanos em presença, ora em conjugação, ora em oposição, representados por cada um dos homens. E não é nada fácil filmá-los e coreografá-los num espaço exíguo, de modo a não toldar esse exercício de observação, conservando uma naturalidade essencial para o todo funcionar, dando espaço e pretexto aos actores para desempenharem os seus papéis. E é o que eles fazem e o que nós temos para ver, através de um conjunto de“Doze Homens em Fúria” (“12 Angry Men”), de Sidney Lumet (1957) caras que podemos muito bem conhecer de outros filmes e séries da época, algumas até de “eternos secundários”, mas que aqui partilham o mesmo plano, o mesmo palco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Ed Begley, E. G. Marshall, Jack Warden, Martin Balsam, Jack Klugman, John Fiedler, Joseph Sweeney, Robert Webber, Edward Binns e George Voskovec, aqui ordenados pela relevância que atribuo às suas respectivas carreiras.


12 Homens em Fúria

Título Original: 12 Angry Men
Intérpretes: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Martin Balsam, Jack Warden
Realização: Sidney Lumet
Produção: Henry Fonda, Reginald Rose
Autoria: Reginald Rose (argumento)
Ano: 1957
Duração: 96 minutos

trailer: https://youtu.be/TEN-2uTi2c0?si=C5YlOv47bhrcJJKX

Comentário de David Furtado a 17 julho 2013 publicado em https://thewandrinstar.wordpress.com/2013/07/07/doze-homens-em-furia-de-sidney-lumet-os-12-gumes-da-justica/ (consulta a 14/04/2026)

"Doze Homens em Fúria começa com o final de um julgamento a que não assistimos e com as palavras do juiz: “Ouviram os testemunhos e a interpretação da lei no tocante a estes casos. É agora vosso dever reunirem-se e tentarem separar os factos da ficção. Um homem morreu. Está em jogo a vida de outro homem. Se existir uma dúvida legítima nas vossas mentes em relação à culpabilidade do acusado, devem trazer-me um veredicto de inocência. Se, contudo, não existir dúvida legítima, devem, em boa consciência, considerar culpado o acusado. Seja como for, o vosso veredicto tem de ser unânime. Enfrentam uma séria responsabilidade. Obrigado, meus senhores.”

Está em jogo a pena de morte, e os jurados retiram-se para a sua sala. Depois da conversa de circunstância, percebemos que estão todos de acordo, querem ir para casa e despachar o assunto. Começam a votar: “Muito bem. 11 votam culpado. Quem vota inocente? Um. Muito bem. Agora sabemos em que pé estamos.” “Caramba! Há sempre um”, comenta um jurado olhando para o homem que votou inocente, representado por Henry Fonda. É este homem, um arquiteto, simbolicamente vestido de branco, que questiona o julgamento. (Saberemos no fim que se chama ‘Davis’, já que não são dados nomes aos jurados, apenas números.) Os restantes 11 provocam-no:

“Acha mesmo que ele é inocente? Ouviu o que ele fez. O miúdo é um assassino perigoso. Apunhalou o próprio pai. Provaram-no de uma dúzia de maneiras diferentes no tribunal. Quer que lhe faça uma lista?”

“Não.”

“Então o que quer?”

“Só quero falar. Não é fácil levantar a mão e mandar um miúdo para a morte, sem falar antes sobre isso. Trata-se da vida de alguém. Não podemos decidir em cinco minutos. Suponham que estamos enganados?”

A Biblioteca do Congresso Americana adicionou, em dezembro de 2007, 25 filmes ao seu arquivo, ato que se destina a preservar estas obras para futuras gerações. Doze Homens em Fúria foi e é universalmente aclamado e considerado uma herança cultural nos Estados Unidos.

segunda-feira, 23 de março de 2026

A ALEGORIA DA CAVERNA EM BANDA DESENHADA

 

Esta banda desenhada não é recente, mas continua atual...  Então, se substituirmos a TV por um telemóvel, ainda mais atual fica!

A ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO

 A alegoria, ou mito, da Caverna é um dos textos mais célebres de Platão (427 a.c.- 327 a.c.) e da História da Filosofia. Com esta história imaginada, Platão pretendeu facilitar a compreensão das sua teorias filosóficas. 

No entanto, esta história que facilmente se conta consegue adquirir significados múltiplos e sempre renovados.

Aqui transcrevemos o texto.

«Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
- Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?–  E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles ?
–  Sem dúvida.
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam? 
– É forçoso.
 – E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?
– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objetos, refletidas na água, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
- Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objetos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência viver daquela maneira.– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
– Com certeza
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão ? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam ?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.

A República de Platão, Livro VII, 514a-517b, trad. de Maria Helena Rocha Pereira

                                        

Remetemos, agora,  para esta animação a que o grande cineasta Orson Wells empresta a voz, no video original.




Alegoria da Caverna, com Orson Wells


terça-feira, 10 de março de 2026

ACERCA DA VERDADE - O RELATIVISMO DE PROTÁGORAS

 


ACERCA DA VERDADE - O RELATIVISMO DE PROTÁGORAS

 

«Pois afirmo que a verdade é como eu [Protágoras] escrevi. Pois cada um de nós é a medida do que é e do que não é, e no entanto cada um difere infinitamente do outro: para um é uma coisa e assim aparece, a outro é e aparece outra coisa. E estou longe de negar que exista a sabedoria e o homem sábio. Mas este mesmo a quem chamo sábio é aquele de nós que, quando as coisas são e lhe parecem más, as muda, de modo a aparecerem e serem boas. Contudo, não persigas este meu raciocínio pelas minhas palavras, mas tenta compreender mais claramente aquilo que digo. Recorda-te, pois, do que foi dito atrás, que, para quem está doente, aquilo que come parece e é amargo, mas para quem está saudável aparece e é o contrário. E não é preciso fazer mais sábio nenhum dos dois – pois não é possível – nem se deve acusar o doente de ser ignorante por ter esta opinião, nem o saudável de sábio por ter outra; mas deve fazer-se uma mudança no doente, porque é melhor o estado do outro. Do mesmo modo, também na educação se deve fazer uma mudança de um estado para outro melhor; mas o médico faz a mudança com remédios e o sofista com discursos. Por conseguinte, não fez com que o que tem uma opinião falsa tivesse posteriormente uma opinião verdadeira (…). Mas penso que uma má disposição de ânimo faz surgir opiniões a ela conformes e uma boa, outras diversas, e também em consonância com elas, representações a que alguns chamam verdadeiras; mas eu chamo a umas melhores que a outras, mas não mais verdadeiras. (…) E afirmo que os oradores sábios e bons fazem com que as coisas benéficas pareçam ser justas às cidades, em vez de defeituosas. Pois aquilo que a cada cidade parece justo e belo é isso para ela, enquanto assim o determinar. Mas o sábio é aquele que faz serem e parecerem benéficas cada uma das coisas que para os outros são defeituosas. E, pela mesma ordem de ideias, também o sofista, assim, capaz de instruir os que são ensinados por ele, é sábio e merece muito dinheiro da parte dos que educa. E, deste modo, uns são mais sábios do que outros e ninguém tem uma opinião falsa.»

 

Platão, Teeteto, trad.de Adriana Nogueira e Marcelo Boeri, Lisboa, Ed.Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, 166d-167c.

Sócrates refuta Meleto

 

11. Julgo que acerca das coisas de que os meus antigos acusadores me acusaram disse já o bastante. Agora vou tentar defender-me do bom Meleto, o amigo da cidade, como se diz, e dos meus novos acusadores. Tal como fiz para os outros, pego no texto que juraram. É assim: declara-se que Sócrates incorre em falta por corromper os jovens e por não acatar os deuses que a cidade acata, mas divindades novas.

A acusação é esta; investiguemos cada um destes pontos. Afirma-se que eu cometo crime contra o que é justo, corrompendo os jovens. E eu, homens de Atenas, digo-vos que Meleto comete injustiça por brincar com coisas sérias, atirando os homens para a luta e fingindo zelar e cuidar de coisas de que nunca cuidou, nem pouco nem muito. Que isto é assim, tentarei também mostrar-vos.

12. Diz-me cá, Meleto, achas muito importante que os homens se tornem tão bons quanto possível?

«Acho.»

Vamos, diz então a estes juízes quem os faz melhores. É evidente que sabes, pois te preocupas com isso. Já descobriste quem os corrompe, como dizes, uma vez que me trouxeste diante dos juízes e me acusas. Agora, diz, revela quem é que os faz melhores. Calas-te Meleto, não consegues falar? Não sentes como o teu silêncio é vergonhoso e constitui prova bastante de não te preocupares com o assunto? Diz-me, ó excelente! quem é que os faz melhores?

«As leis.»

Não foi isso que te perguntei, meu amigo. Perguntei-te que homem os faz melhores, que homem melhor que todos conhece as leis?

«Estes homens, Sócrates, os juízes.»

Que dizes, Meleto? São estes homens capazes de educar os jovens e de os fazer melhores?

«Mais que todos.»

E todos eles são capazes, alguns apenas, ou nenhuns?

«Todos.»

Por Hera, que boa resposta! Que abundância há de homens úteis! E estes que nos ouvem, fazem-nos melhores, ou não?

«Também fazem.»

E os Conselheiros?

«Os Conselheiros também.»

Meleto, e a assembleia? Os membros da assembleia corrompem os jovens? Ou também eles os fazem melhores?

«Também esses.»

Portanto, todos os Atenienses, ao que parece, fazem os jovens bons e belos, a não ser eu; eu e só eu os corrompo. É isso que dizes?

«É o que digo.»

Condenas-me a uma grande infelicidade. Mas responde-me: parece-te que se dá o mesmo com os cavalos? Todos os homens os fazem melhores, enquanto um apenas os corrompe? Ou, apenas um ou muito poucos – os tratadores de cavalos – são capazes de os melhorar, enquanto a maioria dos homens, se os trata, os corrompe? Não é isso verdade, tanto dos cavalos, quanto dos outros animais? Sem dúvida que é, quer tu e Ânito o afirmem ou neguem. E seria uma imensa felicidade para os jovens, se apenas um homem os corrompesse, enquanto os outros lhe fazem bem. Contudo, Meleto, mostras bastante que não te preocupaste com os jovens; indicas claramente o teu desinteresse, por nunca teres cuidado dos assuntos que me acusas.

13. Mas diz-nos ainda, meu caro Meleto: é melhor habitar entre concidadãos bons ou maus? Responde-me meu amigo, pois não te pergunto nada que seja difícil. Não fazem os homens vis mal àqueles que sempre estão perto deles, enquanto os bons fazem bem?

«Certamente.»

E há alguém que prefira ser prejudicado a ser beneficiado pelos seus companheiros? Responde, bom homem, pois a lei ordena que respondas. Há alguém que deseje que lhe façam mal?

«Decerto que não.»

Bem. Quando me acusas de corromper os jovens e de os tornar piores, acusas-me de o fazer voluntária ou involuntariamente?

«Voluntariamente.»

O quê, Meleto, com a idade que tens já és mais sábio que eu, com a minha. Já reconheceste que os maus fazem sempre mal aos que têm perto de si e os bons fazem sempre bem? E terei eu chegado a tal ponto de ignorância que até isto ignoro, que, se fizer mal a um companheiro, corro o perigo de receber dele algum mal? E de tal maneira o ignoro que, pelo que dizes, faço esse mal voluntariamente?

Não posso deixar-me convencer disso, Meleto, nem creio que se passe com qualquer outro homem! Ou eu não corrompo, ou, se corrompo, corrompo involuntariamente. Em qualquer dos casos, estás a mentir. E, se os corrompo involuntariamente, a lei não manda acusá-los em tribunal, mas instruí-los e censurá-los particularmente. Porque é evidente que, se me ensinasses, eu deixaria de fazer o que involuntariamente faço. Mas tu fugiste de vires ter comigo e me instruíres. Não o quiseste fazer e agora acusas-me aqui, onde a lei manda acusar os que precisam de castigo e não de instrução.



Platão, Apologia de Sócrates, trad. de José Trindade Santos, Lisboa, Ed. Imprensa Nacional, 1992, 24d-26a


E para quem quiser acompanhar este texto com  imagem, aqui deixo um excerto do filme do cineasta italiano Roberto Rossellini, "Socrates", com base na obra de Platão "Apologia de Sócrates". O filme data de 1971 e procura ser historicamente fiel, quer na reconstituição histórica do ambiente quer nas falas dos diferentes personagens, ao processo de acusação e condenação á morte do filósofo ateniense, em 399 a.C., tal como apresentado na Apologia.  

Excerto do filme "Socrates" de Rossellini


segunda-feira, 2 de março de 2026

SÓCRATES, O «MOSCARDO»

 

Gettyimages.pt

No meio da agitação da cidade, que produz, ao mesmo tempo, disparates e obras-primas, Sócrates vai passeando e falando. À primeira vista o seu comportamento é o de um sofista, pois fala de tudo, seja o que for; mas pela sua parte não abre uma escola. Não ensina; o que diz é ao sabor das conversas que enuncia, sem pedir que lhe paguem, sem sequer exigir que o escutem. Á juventude interessa-se muito pelos seus discursos. Porque fala, se nenhum interesse pessoal tem em fazê-lo?

A esta pergunta responde a defesa que de si próprio fez Sócrates, durante a primeira parte do seu processo e que Platão gravou na Apologia.(…) Outrora, Querofonte, um amigo de Sócrates, resolveu consultar o oráculo de Delfos: perguntou-lhe se haveria um homem mais sábio do que Sócrates. Ora o deus respondeu que não havia. Esta declaração colocou Sócrates no maior dos embaraços. “Que poderia querer dizer o deus? Qual seria o sentido deste enigma? Porque, no fim de contas, eu não tenho nem muito nem pouco, consciência, no mais profundo de mim, de ser um sábio. Que quererá ele dizer ao declarar que eu sou o mais sábio dos homens? Com efeito, é certo que ele não mente, pois tal não lhe é permitido” (Apologia de Sócrates, 21-b). Decidiu, pois, pôr o oráculo à prova. Interrogou primeiro um homem político, isto é, um daqueles cuja profissão é guiar os seus semelhantes. Ao sair desta conversa, Sócrates teve de concordar. “Eis um homem que é menos sábio do que eu. É possível, com efeito, que não saibamos nada, nem um nem outro, de útil. Mas ele nada sabendo, julga que sabe, enquanto eu, embora nada saiba, não julgo saber! Pareço, em todo o caso, ser mais sábio do que aquele, pelo menos num pequeno ponto, precisamente este: que aquilo que eu não sabia também não julgava sabê-lo”(Ibidem, 21-d).

As diligências junto dos poetas levam-no a uma convicção análoga. Pois “trata-se de pessoas que dizem muitas coisas belas mas que não têm nenhum conhecimento preciso sobre as coisas que dizem” (Ibidem, 22-c).

Quanto aos que exercem ofícios, possuem um saber especializado, mas enganam-se ao julgar que, porque exercem a sua técnica na perfeição, são também no resto, de uma sabedoria completa.

Sócrates tem que se convencer: a divindade disse a verdade. Ele é realmente o mais sábio. E, no entanto, daquilo que sente – o facto de não ser sábio – também não pode recusar a evidência. Assim, convém que se interprete o oráculo: o que ele quis dizer é que a sabedoria humana “tem pouco valor ou talvez mesmo nenhum”; mas, sobretudo, ele fixou para Sócrates uma missão: procurar por toda a parte o homem sábio e, se ele não existir, denunciar a falsa sabedoria. A sua tarefa: é a de fazer parir as suas almas, como fazem as parteiras em relação ao corpo das mulheres. No que a ele se refere nada procria: “Em mim não há gestação de saber, e a censura que me foi feita por muita gente, de fazer perguntas aos outros e nada produzir por mim próprio sobre nenhum assunto, por não ser possuidor de qualquer saber, é uma censura com fundamento” (Teeteto, 150-c).

Sócrates comporta-se como um “moscardo”[1], espicaça as consciências adormecidas no sono fácil das ideias feitas. Essa atitude tem, evidentemente, para ele a consequência de ser detestado geralmente, pois dirige-se a todas as camadas da sociedade para, indiferentemente lhes contestar as certezas. Aliás, basta considerar a profissão daqueles que contribuíram para a sua acusação para se ter a certeza de que não deixa ninguém em paz. Encontramos Ânito a representar os políticos, Meleto, os poetas, Lícon, os oradores e os professores de retórica. O processo é a reação da cultura adquirida contra um pensamento que recusa todo o adquirido, seja ele antigo ou de recente data.(…)

A conclusão dos diálogos socráticos é em geral negativa. Aparentemente as duas partes em diálogo saem a perder. O homem seguro de si que, solicitado por Sócrates, vinha para o diálogo com as suas respostas (ou com perguntas cujas respostas ele estava convencido que conhecia) e fingia prestar atenção à conversa sai alquebrado, irritado ou decidido a andar para a frente – o que não é frequente -, ora a troçar ou a detestar o ironista que com tanta exatidão destrói as suas crenças. (…) À opinião, ele não opôs, como um desses sofistas em moda, outra opinião. Provou a ineficácia de toda a atitude mental, de toda a conduta baseada na opinião. Ele pôs em evidência o vazio da opinião.

 

CHÂTELET, François (dir.), História da Filosofia, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1974, vol. 1, pp.74-77.

 

 



[1] “(…) Se me matardes, não encontrareis com facilidade outro como eu, que – para falar gracejando – se agarra à cidade como um moscardo a um cavalo forte e de bom sangue que, por causa do tamanho, precisa de ser despertado por um aguilhão. Parece-me que é como se o deus me tivesse preso à cidade, para que eu acorde, convença e exorte cada um de vós durante todo o dia, em qualquer lugar e sem afrouxar o cerco. Outro como eu não vos aparecerá facilmente. Se, pois, tendes confiança em mim, poupai-me. Mas talvez, como quem é acordado alta noite, persuadidos por Ânito, vos irriteis comigo e, movidos pela cólera, me mateis sem pensar. Passareis então o resto da vida a dormir, a menos que o deus envie algum outro para vos inquietar”. Apologia de Sócrates, 30e.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

OS SOFISTAS

 

Protágoras, 490a.c.-415a.c.Escola Sofística


Os grandes sofistas não são de proveniência ateniense. Estrangeiros, viajam de cidade democrática em cidade democrática, demorando-se apenas nas mais importantes, especialmente em Atenas. A variedade das figuras e dos estilos, torna difícil uma definição geral. (…) A expansão da deliberação democrática favorece o espírito crítico e as iniciativas e reivindicações individuais, exigindo, da parte daqueles que melhor posição têm, e pelo menos dos mais ambiciosos, a aprendizagem da manipulação retórica[1] das assembleias e a determinação dos ideias individuais e coletivos que nelas deve permanecer. Estas necessidades permitem compreender como no mundo grego do século V puderam aparecer os sofistas. Ora mais políticos como Protágoras de Abdera, ora mais retóricos como Górgias de Leontinos, ora mais preocupados em acumular conhecimentos técnicos como Hípias de Élis, tiveram em comum o pretenderem ensinar, a níveis mais ou menos distintos, segundo os casos, uma arte de viver e de vencer obstáculos na comunidade democrática. É difícil reconhecer-lhes doutrinas bem claras e porque comerciavam com o seu saber, tinham de interessar-se fundamentalmente pela exposição, argumentada de forma eficaz, das mais contraditórias concepções. O relativismo de Protágoras, o mais antigo e prestigiado dos sofistas, talvez seja a doutrina de um homem sem doutrina, que sabe quanto vale o por e o contra teóricos.

É preciso um novo modo de educação. Qual era, com efeito, o modo de formação tradicional? Ensinava-se os homens a serem bons cavaleiros, homens pios, respeitadores das divindades e da recordação dos antepassados. Isso não basta agora! É preciso saber falar. A palavra é doravante, aquela que permite a cada um, na Assembleia, nos processos, fazer valer o seu ponto de vista. É graças a ela que o cidadão pode defender a sua posição e a sua independência, que ele se impões na cidade.

A civilização da linguagem – assim chama Aristófanes[2] ao novo ensino. Abrem-se novas escolas, dirigidas por metecos, que suscitam uma afluência considerável. Os mais ilustres desses mestres, Górgias, Protágoras, Hípias, têm como único programa ensinar os seus alunos a bem falar de tudo, seja o que for, a defender com persuasão, seja que causa for.

 

François Châtelet, História da Filosofia



[1] A Retórica surgiu no século V, na Grécia Antiga, tendo inicialmente como seus principais cultores os sofistas. É uma arte do discurso, associada à argumentação e tendo como objetivo a persuasão. Assim, não tem que se associar a retórica diretamente à manipulação. Persuasão e manipulação são diferentes. Enquanto a persuasão visa a adesão do interlocutor apelando à sua racionalidade, a manipulação utiliza estratégias argumentativas por vezes falaciosas e visa a adesão do interlocutor “a qualquer custo”.

[2] Aristófanes é um dramaturgo grego, séc. V, a.c., autor de comédias que criticavam, satirizando, diversos aspetos da sociedade ateniense. Atacou, por exemplo, os sofistas, considerando-os como habilidosos que faziam o falso parecer verdadeiro, e o poder perigoso da linguagem quando utilizada por “demagogos”. O termo “demagogo” significava inicialmente “líder do povo”, sem conotação negativa. Esta foi sendo adquirida pela prática da utilização do discurso com a finalidade de obtenção do poder pessoal através de técnicas retóricas enganosas, o que Aristófanes critica. Em vez da utilização de uma argumentação racional para defender uma ideia, há a utilização de preconceitos e medos do povo, jogando com as suas emoções, com vista a provocar a sua adesão. O demagogo não tem preocupação com a verdade ou o justo, ou com os interesses do povo, tem apenas um projeto pessoal de domínio e obtenção do poder político, para o qual todos os meios servem, incluindo a mentira. Platão e Aristóteles classificarão os demagogos como “aduladores do povo”. O demagogo não é um líder, mas um oportunista e a sua má utilização da retórica corrompe a política e a democracia.

Obsv. - Notas da nossa responsabilidade.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sócrates na pintura de Jacques Louis David

 
O pintor J. Louis David, em 1787, representa nesta célebre pintura o filósofo Sócrates nos momentos que antecedem a sua morte.


Sócrates foi condenado pelos juízes de Atenas após ter sido acusado de não acreditar nos deuses da cidade e de corromper os jovens. Apesar de mostrar o carácter infundado das acusações e alertar para a injustiça que estava a ser cometida, Sócrates aceitou com serenidade a decisão do tribunal. 

A pintura de J. Louis David ilustra a heroicidade do filósofo, a sua aceitação da morte, a sua figura tranquila apontando para cima, sugerindo a imortalidade da alma,  contrastando com a postura cabisbaixa, com a tristeza dos seus discípulos, nomeadamente Críton e Platão (embora a presença física de Platão no cárcere com outros discípulos de Sócrates não corresponda à verdade histórica).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Pensamento racional

A filosofia e a ciência começam por classificar-se como formas de pensamento racional em oposição ao pensamento mítico. Os primeiros filósofos eram também “cientistas”, procurando explicações lógicas e racionais para aquilo que observavam. Vemos que:

Tales, séculos VII-VI a.C., o dito primeiro filósofo, era astrónomo e matemático. Sabe-se que previu um eclipse do sol em 585 a. C. e que calculou a altura da pirâmide de Quéops, a partir da sua sombra. Ainda hoje se mantém válido o teorema de Tales.

Pitágoras continua a ser conhecido principalmente pelo seu contributo matemático, o teorema de Pitágoras.

Já no período clássico, Platão, séc. IV a.C., valorizava o pensamento matemático de tal forma que o considerava propedêutico para a filosofia. “Não entres se não és geómetra” é a inscrição à entrada da Academia de Platão, a escola fundada por si.

Aristóteles, séc. IV a.C., escreveu o que se considera ser o primeiro tratado de zoologia com a primeira classificação dos seres vivos.

Descartes, filósofo francês, século XVII, foi o inventor da Geometria Analítica e poderíamos continuar...

O termo ciência, originariamente, significa um saber racional, explicativo, teórico, organizado e sistematizado. Neste sentido a filosofia foi considerada ciência e, pelas características do seu objeto, a totalidade do real, foi durante séculos considerada a ciência superior ou suprema, englobando todas os saberes. O saber humano considerava-se como pertencendo a uma unidade, num sistema hierarquizado de que a filosofia constituía a ciência primeira, a ciência dos princípios e dos fundamentos.

Ao mesmo tempo, considerava-se como a “mãe das ciências”, visto que todas os saberes parcelares surgiram do seu seio, tendo-se autonomizado progressivamente. Vemos a área de conhecimento hoje conhecida por “Física” ter sido durante muito tempo designada “Filosofia Natural”. É assim que aparece ainda no título da importante obra de Física de Isaac Newton (século XVII-XVIII) “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” (1687).

A separação e a distinção entre filosofia e ciência foi sendo estabelecida progressivamente a partir do trabalho de Galileu (século XVII) e da descoberta de um método de análise da realidade baseado na experiência e na abordagem matemática dos fenómenos físicos observados. Surgia o método globalmente designado como experimental, que determinou não só o surgimento da Física como ciência autónoma, mas também se afirmou como o procedimento científico de referência. Doravante, para qualquer saber aceder ao estatuto de ciência teria que adotar a metodologia experimental. Este método científico, se bem que tenha sofrido ajustamentos e se tenha de adaptar a cada objeto específico de estudo e investigação, continua a caracterizar-se pelo rigor nos procedimentos de observação e testagem experimental, pelo vocabulário preciso e linguagem técnica, pela participação e controle dos pares no âmbito de comunidade científica. Assim, se a ciência for definida pela utilização da metodologia experimental, a filosofia não pode ser considerada ciência. A natureza dos problemas da filosofia não suporta uma abordagem experimental.  Não há ciência experimental que nos possa dizer o que é o bem e o mal, o justo e o injusto…A filosofia continua a ter como método a reflexão, a crítica, o pensamento rigoroso, a argumentação lógica e racional.

Hoje em dia, a Filosofia e a Ciência constituem-se como campos de saber que utilizam métodos distintos de abordagem do real. Continuam a ser consideradas formas racionais de compreensão e explicação da realidade, nas suas diversas dimensões, ambas nascidas da mesma busca pela verdade.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Tales de Mileto - O primeiro filósofo

 Na nossa última publicação, ficámos com a pergunta que os primeiros filósofos fizeram e para a qual procuraram resposta.


Haverá um elemento primordial a partir do qual tudo é gerado?

imagem retirada de http://www.infopedia.pt//apoio/recursos/rfa_2035.jpg
Quem primeiro respondeu a esta pergunta, segundo sabemos, foi Tales.
Tales, nascido na colónia grega de Mileto, no século VII a. C.. Tales de Mileto, portanto.

Tales é também conhecido como astrónomo e matemático. Quem não conhece (pelo menos de nome!) o teorema de Tales? Mas Tales não se ficou apenas (!) pela resolução de problemas particulares, como por exemplo, calcular a altura de uma pirâmide no Egipto ou prever um eclipse do Sol. 

Não, Tales queria encontrar resposta para um problema bem mais complexo como o da origem do Cosmos, palavra grega que continua a significar para nós Mundo ou Universo. O que o distingue como filósofo é precisamente esta necessidade de encontrar uma explicação total, que possa dar conta da existência do universo e das coisas nele existentes. 
Tales rejeitou as explicações míticas, narrativas que reconduziam a origem do universo e das coisas a uma ação de elementos acima da natureza (dizemos sobrenaturais) deuses ou divindades com poder de criar e agir sobre os fenómenos físicos. Para a mesma questão, explicações diferentes, a cosmologia, explicação racional, substitui a cosmogonia, explicação mítica. 
Baseado na observação dos fenómenos naturais e confiante na sua própria e humana capacidade de compreensão e de explicação, dizemos, na razão, Tales considerou que tudo tinha tido origem na água e que a água era elemento constituinte de todas as coisas.  
Enquanto elemento constituinte de todas as coisas a água seria entendida como substância, quer dizer aquilo que subjaz em tudo e aquilo que permanece. 
Tales tinha observado que a água, elemento natural, era indispensável à vida, na sua passagem pelo Egipto teria observado como os campos depois das cheias se tornavam férteis...Além disso, a água pode assumir os três estados da matéria, sólido, líquido e gasoso...

Assim, a água seria o elemento primordial (arquê) do qual tudo se teria originado e a água estaria presente em todas as coisas. 

Para os primeiros filósofos há uma substância de que todas as coisas são feitas e há um princípio de onde todas derivam. Para Tales, teria sido a água, para Anaxímenes, o ar, para Pitágoras, o número...

Todos os filósofos gregos antes de Sócrates, filósofos pré-socráticos, tinham como centro do seu estudo o Cosmos, o mundo físico, daí o terem sido designados também como cosmólogos, físicos ou fisiólogos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Onde e quando nasceu a Filosofia?

Imagem retirada de: https://www.educabras.com/aula/grecia-antiga


«Vemos a filosofia como uma forma completamente diferente de pensar, que surgiu aproximadamente em 600 a.C. na Grécia. (...)
Para compreendermos o pensamento dos primeiros filósofos, temos de compreender igualmente o que significa ter uma conceção mítica do mundo. Tomaremos como exemplo algumas conceções míticas da Europa do Norte.(...)
Certamente já ouviste falar de Thor e do seu  martelo. Antes de o cristianismo chegar à Noruega, os homens, aqui no Norte, acreditavam que Thor viajava pelo céu num carro puxado por dois bodes. Quando ele brandia o seu martelo, seguiam-se raios e trovões. (...)
Quando troveja ou relampeja, também chove. Isso podia ser indispensável à vida para os camponeses da época dos Vikings. Por isso, Thor era venerado como deus da fertilidade.
A resposta mítica à pergunta porque é que chove, era: Thor brandiu o seu martelo. E quando a chuva vinha, as sementes germinavam e cresciam nos campos. (...)
Passámos um olhar sobre a mitologia nórdica, mas havia representações míticas como estas em todo o mundo antes de os filósofos começarem a criticá-las. Também os Gregos tinham uma conceção mítica do mundo, quando surgiram os primeiros filósofos. Durante séculos, uma geração transmitia à seguinte as histórias dos deuses. Na Grécia, as divindades chamavam-se Zeus e Apolo, Hera e Atena, Dionísio e Asclépio, para citar apenas alguns. (...)

Nesta época, os Gregos fundaram muitas cidades-estado na Grécia e nas suas colónias da Itália meridional e da Ásia Menor. Aí os escravos executavam todo o trabalho físico, e os cidadãos livres podiam dedicar-se à política e à cultura. Com estas condições de vida, a maneira de pensar dos homens mudou: cada indivíduo podia colocar a questão de como a sociedade devia ser organizada. Do mesmo modo, podia também colocar questões filosóficas, sem ter de recorrer aos mitos tradicionais.
Dizemos que se deu um desenvolvimento de um modo de pensar mítico para um género de reflexão baseada na experiência e na razão. O objetivo dos primeiros filósofos gregos era encontrar explicações naturais para os fenómenos da natureza. (...)

    Haverá um elemento primordial a partir do qual tudo é gerado?

GAARDER, J. O Mundo de Sofia, Lisboa, Editorial Presença, 1998, pp. 26-32



terça-feira, 28 de outubro de 2025

Todos somos filósofos?


O filósofo alemão Markus Gabriel (n.1980)

Precisamos de um pensamento bem informado, estruturado, e que não seja o pensamento do “especialista”. Esse pensamento é o da filosofia. De certa maneira, todos os seres são filósofos, mas não sabem. Todos querem saber se somos agregados de célula ou imortais. Essas questões a respeito de quem somos são filosóficas. Precisamos é de mais filosofia no espaço político.

Mas na filosofia trata-se de uma reflexão que, em princípio, não tem nenhuma meta além da reflexão, trocar ideias em torno de uma questão sem querer nada com isso, o que é um conceito importante da liberdade: a ideia de um pensamento sem fim que nos liberta, que produz conhecimento e autoconhecimento. É uma forma de liberdade e de resistência. Por isso o grande génio da Filosofia, Sócrates, resistiu ao sistema político da democracia grega ao insistir que ele não sabia nada.

Um critério para uma sociedade mais justa deveria incluir o direito humano a ter tempo na vida para discutir a questão de quem somos. Quem não tem sequer tempo para isso jamais poderá viver uma “boa vida”. Para mim é um imperativo categórico que haja espaço de educação e reflexão para todos. Sou universalista radical nesse sentido. Mas é difícil chegar com os pressupostos económicos em vigor.

Excertos de uma entrevista ao Jornal Globo, que pode ser vista aqui: 

'A ideologia é de um tipo de fim do mundo', diz o filósofo Markus Gabriel - Jornal O Globo

O que é "criticar"?

José Barata-Moura, filósofo português, n. 1948

Criticar não é dizer-mal; é procurar ver bem. Tão-pouco criticar é contrapor, de um modo abstrato e mecânico, enunciações que entre si se excluem. (…) A crítica é um exame: um fazer passar pelos crivos da racionalidade, e do discernimento, tudo aquilo que imediatamente se nos apresenta (…) como inquestionável.

Há que cuidar de um estabelecimento correto dos problemas. A labuta do pensar não visa simplesmente as respostas que, em prémio, hão-de obter-se. Precisa de madrugar. Começa mais cedo. Pela elaboração dos questionários. As «soluções» não caem do céu. De paraquedas. Por inspiração funda de alguma corrente de ar benfazeja. Rodopiando no espirro incandescente de uma revoada de luz, ou no piar de um passarinho. As vias resolutórias engendram-se, surgem, e transpiram, de dentro de uma problemática que lhes define um horizonte. Confirma-se que os filósofos parecem ter predileção pelo acionamento de uma estranha maquineta que dá pelo nome sugestivo de «complicómetro». Mas não é porque eles estejam possuídos por uma indebelável mania de ensarilhar os lotes. O sarilho está metido no próprio enredamento das coisas. E para desenvencilhar é preciso trazê-lo à mastigação do pensamento.

Texto completo aqui:

Philosophica 45 r.indd (ul.pt)

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Dicionário Filosófico - Dogmatismo

Derivado de «Dogma, do grego dokein, termo, opinião. O uso deste termo refere-se ao domínio da filosofia e aplica-se em dois sentidos: de modo restrito, remete para o problema do conhecimento, sendo que dogmático é aquele que afirma ser possível o conhecimento do real com certeza, neste sentido o dogmatismo remete para o problema do conhecimento e opõe-se a ceticismo; noutro sentido, de modo mais lato, aplica-se a qualquer doutrina, teoria, ideia, que seja aceite sem a devida fundamentação, pois normalmente exige-se que a fundamentação seja racional. (...)

O famoso preceito de Sócrates - Só sei que nada sei - é significativo do esforço constante que deve presidir à filosofia, o de recusar um saber já feito que o sujeito não possa iluminar por si mesmo. Em Descartes é evidente o esforço por não aceitar o argumento de autoridade, radicando qualquer certeza relativamente ao problema do conhecimento no próprio sujeito, através da dúvida metódica.»

dogmatismo na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.pt/artigos/$dogmatismo [visualizado em 2025-10-27 15:32:46].

Num sentido geral, o dogmatismo é a atitude de não aceitar debater racionalmente ideias tomadas como verdades inquestionáveis. A atitude dogmática é caracterizada pela inflexibilidade e rigidez intelectuais.
O dogmatismo caracteriza o senso comum, na medida em que este é composto por um conjunto de crenças, ideias, hábitos... adotados e aceites de forma passiva e acrítica.

O valor da filosofia

   
O valor da filosofia, em grande parte, deve ser buscado na sua mesma incerteza. Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que se derivaram do senso comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele, os objectos habituais não erguem problemas, e as possibilidades infamiliares são desdenhosamente rejeitadas. Pelo contrário, quando começamos a filosofar, imediatamente caímos na conta (…) de que até os objectos mais vulgares conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta. A filosofia, se bem que incapaz de nos dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta às variadas dúvidas que ela própria evoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Embora diminua, por consequência, o nosso sentimento de certeza no que diz respeito ao que as coisas são, aumenta em muitíssimo o conhecimento a respeito do que as coisas podem ser; varre o dogmatismo, um tudo-nada arrogante dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o sentimento de admiração, porque nos mostra as coisas que nos são costumadas num determinado aspecto que o não é.


Russell, Os Problemas da Filosofia, Coimbra, Arménio Amado, 1980, p. 236

domingo, 26 de outubro de 2025

A importância da filosofia




Viver sem filosofar é na verdade ter os olhos fechados, sem nunca se esforçar por os abrir; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é de modo nenhum comparável à satisfação que dá o conhecimento das coisas que se descobrem por meio da filosofia; e, enfim, este estudo é mais necessário para orientar as nossas ações nesta vida do que o uso dos nossos olhos para guiar os nossos passos.

         Descartes, "Princípios da Filosofia"(1644).