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No meio da agitação da cidade, que produz, ao
mesmo tempo, disparates e obras-primas, Sócrates vai passeando e falando. À
primeira vista o seu comportamento é o de um sofista, pois fala de tudo, seja o
que for; mas pela sua parte não abre uma escola. Não ensina; o que diz é ao
sabor das conversas que enuncia, sem pedir que lhe paguem, sem sequer exigir
que o escutem. Á juventude interessa-se muito pelos seus discursos. Porque
fala, se nenhum interesse pessoal tem em fazê-lo?
A esta
pergunta responde a defesa que de si próprio fez Sócrates, durante a primeira
parte do seu processo e que Platão gravou na Apologia.(…) Outrora, Querofonte,
um amigo de Sócrates, resolveu consultar o oráculo de Delfos: perguntou-lhe se
haveria um homem mais sábio do que Sócrates. Ora o deus respondeu que não
havia. Esta declaração colocou Sócrates no maior dos embaraços. “Que poderia
querer dizer o deus? Qual seria o sentido deste enigma? Porque, no fim de
contas, eu não tenho nem muito nem pouco, consciência, no mais profundo de mim,
de ser um sábio. Que quererá ele dizer ao declarar que eu sou o mais sábio dos
homens? Com efeito, é certo que ele não mente, pois tal não lhe é permitido”
(Apologia de Sócrates, 21-b). Decidiu, pois, pôr o oráculo à prova. Interrogou
primeiro um homem político, isto é, um daqueles cuja profissão é guiar os seus
semelhantes. Ao sair desta conversa, Sócrates teve de concordar. “Eis um homem
que é menos sábio do que eu. É possível, com efeito, que não saibamos nada, nem
um nem outro, de útil. Mas ele nada sabendo, julga que sabe, enquanto eu,
embora nada saiba, não julgo saber! Pareço, em todo o caso, ser mais sábio do
que aquele, pelo menos num pequeno ponto, precisamente este: que aquilo que eu
não sabia também não julgava sabê-lo”(Ibidem, 21-d).
As
diligências junto dos poetas levam-no a uma convicção análoga. Pois “trata-se
de pessoas que dizem muitas coisas belas mas que não têm nenhum conhecimento
preciso sobre as coisas que dizem” (Ibidem, 22-c).
Quanto
aos que exercem ofícios, possuem um saber especializado, mas enganam-se ao
julgar que, porque exercem a sua técnica na perfeição, são também no resto, de
uma sabedoria completa.
Sócrates
tem que se convencer: a divindade disse a verdade. Ele é realmente o mais
sábio. E, no entanto, daquilo que sente – o facto de não ser sábio – também não
pode recusar a evidência. Assim, convém que se interprete o oráculo: o que ele
quis dizer é que a sabedoria humana “tem pouco valor ou talvez mesmo nenhum”;
mas, sobretudo, ele fixou para Sócrates uma missão: procurar por toda a parte o
homem sábio e, se ele não existir, denunciar a falsa sabedoria. A sua tarefa: é
a de fazer parir as suas almas, como fazem as parteiras em relação ao corpo das
mulheres. No que a ele se refere nada procria: “Em mim não há gestação de
saber, e a censura que me foi feita por muita gente, de fazer perguntas aos
outros e nada produzir por mim próprio sobre nenhum assunto, por não ser
possuidor de qualquer saber, é uma censura com fundamento” (Teeteto,
150-c).
Sócrates
comporta-se como um “moscardo”[1], espicaça as consciências
adormecidas no sono fácil das ideias feitas. Essa atitude tem, evidentemente,
para ele a consequência de ser detestado geralmente, pois dirige-se a todas as
camadas da sociedade para, indiferentemente lhes contestar as certezas. Aliás,
basta considerar a profissão daqueles que contribuíram para a sua acusação para
se ter a certeza de que não deixa ninguém em paz. Encontramos Ânito a
representar os políticos, Meleto, os poetas, Lícon, os oradores e os
professores de retórica. O processo é a reação da cultura adquirida contra um
pensamento que recusa todo o adquirido, seja ele antigo ou de recente data.(…)
A
conclusão dos diálogos socráticos é em geral negativa. Aparentemente as duas
partes em diálogo saem a perder. O homem seguro de si que, solicitado por
Sócrates, vinha para o diálogo com as suas respostas (ou com perguntas cujas
respostas ele estava convencido que conhecia) e fingia prestar atenção à
conversa sai alquebrado, irritado ou decidido a andar para a frente – o que não
é frequente -, ora a troçar ou a detestar o ironista que com tanta exatidão
destrói as suas crenças. (…) À opinião, ele não opôs, como um desses sofistas
em moda, outra opinião. Provou a ineficácia de toda a atitude mental, de toda a
conduta baseada na opinião. Ele pôs em evidência o vazio da opinião.
CHÂTELET, François (dir.), História
da Filosofia, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1974, vol. 1, pp.74-77.
[1]
“(…) Se me matardes, não encontrareis com facilidade outro como eu, que – para falar
gracejando – se agarra à cidade como um moscardo a um cavalo forte e de bom
sangue que, por causa do tamanho, precisa de ser despertado por um aguilhão.
Parece-me que é como se o deus me tivesse preso à cidade, para que eu acorde,
convença e exorte cada um de vós durante todo o dia, em qualquer lugar e sem
afrouxar o cerco. Outro como eu não vos aparecerá facilmente. Se, pois, tendes
confiança em mim, poupai-me. Mas talvez, como quem é acordado alta noite,
persuadidos por Ânito, vos irriteis comigo e, movidos pela cólera, me mateis
sem pensar. Passareis então o resto da vida a dormir, a menos que o deus envie
algum outro para vos inquietar”. Apologia de Sócrates, 30e.

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