terça-feira, 10 de março de 2026

ACERCA DA VERDADE - O RELATIVISMO DE PROTÁGORAS

 


ACERCA DA VERDADE - O RELATIVISMO DE PROTÁGORAS

 

«Pois afirmo que a verdade é como eu [Protágoras] escrevi. Pois cada um de nós é a medida do que é e do que não é, e no entanto cada um difere infinitamente do outro: para um é uma coisa e assim aparece, a outro é e aparece outra coisa. E estou longe de negar que exista a sabedoria e o homem sábio. Mas este mesmo a quem chamo sábio é aquele de nós que, quando as coisas são e lhe parecem más, as muda, de modo a aparecerem e serem boas. Contudo, não persigas este meu raciocínio pelas minhas palavras, mas tenta compreender mais claramente aquilo que digo. Recorda-te, pois, do que foi dito atrás, que, para quem está doente, aquilo que come parece e é amargo, mas para quem está saudável aparece e é o contrário. E não é preciso fazer mais sábio nenhum dos dois – pois não é possível – nem se deve acusar o doente de ser ignorante por ter esta opinião, nem o saudável de sábio por ter outra; mas deve fazer-se uma mudança no doente, porque é melhor o estado do outro. Do mesmo modo, também na educação se deve fazer uma mudança de um estado para outro melhor; mas o médico faz a mudança com remédios e o sofista com discursos. Por conseguinte, não fez com que o que tem uma opinião falsa tivesse posteriormente uma opinião verdadeira (…). Mas penso que uma má disposição de ânimo faz surgir opiniões a ela conformes e uma boa, outras diversas, e também em consonância com elas, representações a que alguns chamam verdadeiras; mas eu chamo a umas melhores que a outras, mas não mais verdadeiras. (…) E afirmo que os oradores sábios e bons fazem com que as coisas benéficas pareçam ser justas às cidades, em vez de defeituosas. Pois aquilo que a cada cidade parece justo e belo é isso para ela, enquanto assim o determinar. Mas o sábio é aquele que faz serem e parecerem benéficas cada uma das coisas que para os outros são defeituosas. E, pela mesma ordem de ideias, também o sofista, assim, capaz de instruir os que são ensinados por ele, é sábio e merece muito dinheiro da parte dos que educa. E, deste modo, uns são mais sábios do que outros e ninguém tem uma opinião falsa.»

 

Platão, Teeteto, trad.de Adriana Nogueira e Marcelo Boeri, Lisboa, Ed.Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, 166d-167c.

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