ACERCA
DA VERDADE - O RELATIVISMO DE PROTÁGORAS
«Pois afirmo
que a verdade é como eu [Protágoras] escrevi. Pois cada um de nós é a medida do
que é e do que não é, e no entanto cada um difere infinitamente do outro: para
um é uma coisa e assim aparece, a outro é e aparece outra coisa. E estou longe
de negar que exista a sabedoria e o homem sábio. Mas este mesmo a quem chamo
sábio é aquele de nós que, quando as coisas são e lhe parecem más, as muda, de
modo a aparecerem e serem boas. Contudo, não persigas este meu raciocínio pelas
minhas palavras, mas tenta compreender mais claramente aquilo que digo.
Recorda-te, pois, do que foi dito atrás, que, para quem está doente, aquilo que
come parece e é amargo, mas para quem está saudável aparece e é o contrário. E
não é preciso fazer mais sábio nenhum dos dois – pois não é possível – nem se
deve acusar o doente de ser ignorante por ter esta opinião, nem o saudável de
sábio por ter outra; mas deve fazer-se uma mudança no doente, porque é melhor o
estado do outro. Do mesmo modo, também na educação se deve fazer uma mudança de
um estado para outro melhor; mas o médico faz a mudança com remédios e o
sofista com discursos. Por conseguinte, não fez com que o que tem uma opinião
falsa tivesse posteriormente uma opinião verdadeira (…). Mas penso que uma má
disposição de ânimo faz surgir opiniões a ela conformes e uma boa, outras
diversas, e também em consonância com elas, representações a que alguns chamam
verdadeiras; mas eu chamo a umas melhores que a outras, mas não mais verdadeiras.
(…) E afirmo que os oradores sábios e bons fazem com que as coisas benéficas
pareçam ser justas às cidades, em vez de defeituosas. Pois aquilo que a cada
cidade parece justo e belo é isso para ela, enquanto assim o determinar. Mas o
sábio é aquele que faz serem e parecerem benéficas cada uma das coisas que para
os outros são defeituosas. E, pela mesma ordem de ideias, também o sofista,
assim, capaz de instruir os que são ensinados por ele, é sábio e merece muito
dinheiro da parte dos que educa. E, deste modo, uns são mais sábios do que
outros e ninguém tem uma opinião falsa.»
Platão, Teeteto, trad.de Adriana Nogueira
e Marcelo Boeri, Lisboa, Ed.Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, 166d-167c.
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