terça-feira, 10 de março de 2026

Sócrates refuta Meleto

 

11. Julgo que acerca das coisas de que os meus antigos acusadores me acusaram disse já o bastante. Agora vou tentar defender-me do bom Meleto, o amigo da cidade, como se diz, e dos meus novos acusadores. Tal como fiz para os outros, pego no texto que juraram. É assim: declara-se que Sócrates incorre em falta por corromper os jovens e por não acatar os deuses que a cidade acata, mas divindades novas.

A acusação é esta; investiguemos cada um destes pontos. Afirma-se que eu cometo crime contra o que é justo, corrompendo os jovens. E eu, homens de Atenas, digo-vos que Meleto comete injustiça por brincar com coisas sérias, atirando os homens para a luta e fingindo zelar e cuidar de coisas de que nunca cuidou, nem pouco nem muito. Que isto é assim, tentarei também mostrar-vos.

12. Diz-me cá, Meleto, achas muito importante que os homens se tornem tão bons quanto possível?

«Acho.»

Vamos, diz então a estes juízes quem os faz melhores. É evidente que sabes, pois te preocupas com isso. Já descobriste quem os corrompe, como dizes, uma vez que me trouxeste diante dos juízes e me acusas. Agora, diz, revela quem é que os faz melhores. Calas-te Meleto, não consegues falar? Não sentes como o teu silêncio é vergonhoso e constitui prova bastante de não te preocupares com o assunto? Diz-me, ó excelente! quem é que os faz melhores?

«As leis.»

Não foi isso que te perguntei, meu amigo. Perguntei-te que homem os faz melhores, que homem melhor que todos conhece as leis?

«Estes homens, Sócrates, os juízes.»

Que dizes, Meleto? São estes homens capazes de educar os jovens e de os fazer melhores?

«Mais que todos.»

E todos eles são capazes, alguns apenas, ou nenhuns?

«Todos.»

Por Hera, que boa resposta! Que abundância há de homens úteis! E estes que nos ouvem, fazem-nos melhores, ou não?

«Também fazem.»

E os Conselheiros?

«Os Conselheiros também.»

Meleto, e a assembleia? Os membros da assembleia corrompem os jovens? Ou também eles os fazem melhores?

«Também esses.»

Portanto, todos os Atenienses, ao que parece, fazem os jovens bons e belos, a não ser eu; eu e só eu os corrompo. É isso que dizes?

«É o que digo.»

Condenas-me a uma grande infelicidade. Mas responde-me: parece-te que se dá o mesmo com os cavalos? Todos os homens os fazem melhores, enquanto um apenas os corrompe? Ou, apenas um ou muito poucos – os tratadores de cavalos – são capazes de os melhorar, enquanto a maioria dos homens, se os trata, os corrompe? Não é isso verdade, tanto dos cavalos, quanto dos outros animais? Sem dúvida que é, quer tu e Ânito o afirmem ou neguem. E seria uma imensa felicidade para os jovens, se apenas um homem os corrompesse, enquanto os outros lhe fazem bem. Contudo, Meleto, mostras bastante que não te preocupaste com os jovens; indicas claramente o teu desinteresse, por nunca teres cuidado dos assuntos que me acusas.

13. Mas diz-nos ainda, meu caro Meleto: é melhor habitar entre concidadãos bons ou maus? Responde-me meu amigo, pois não te pergunto nada que seja difícil. Não fazem os homens vis mal àqueles que sempre estão perto deles, enquanto os bons fazem bem?

«Certamente.»

E há alguém que prefira ser prejudicado a ser beneficiado pelos seus companheiros? Responde, bom homem, pois a lei ordena que respondas. Há alguém que deseje que lhe façam mal?

«Decerto que não.»

Bem. Quando me acusas de corromper os jovens e de os tornar piores, acusas-me de o fazer voluntária ou involuntariamente?

«Voluntariamente.»

O quê, Meleto, com a idade que tens já és mais sábio que eu, com a minha. Já reconheceste que os maus fazem sempre mal aos que têm perto de si e os bons fazem sempre bem? E terei eu chegado a tal ponto de ignorância que até isto ignoro, que, se fizer mal a um companheiro, corro o perigo de receber dele algum mal? E de tal maneira o ignoro que, pelo que dizes, faço esse mal voluntariamente?

Não posso deixar-me convencer disso, Meleto, nem creio que se passe com qualquer outro homem! Ou eu não corrompo, ou, se corrompo, corrompo involuntariamente. Em qualquer dos casos, estás a mentir. E, se os corrompo involuntariamente, a lei não manda acusá-los em tribunal, mas instruí-los e censurá-los particularmente. Porque é evidente que, se me ensinasses, eu deixaria de fazer o que involuntariamente faço. Mas tu fugiste de vires ter comigo e me instruíres. Não o quiseste fazer e agora acusas-me aqui, onde a lei manda acusar os que precisam de castigo e não de instrução.



Platão, Apologia de Sócrates, trad. de José Trindade Santos, Lisboa, Ed. Imprensa Nacional, 1992, 24d-26a


E para quem quiser acompanhar este texto com  imagem, aqui deixo um excerto do filme do cineasta italiano Roberto Rossellini, "Socrates", com base na obra de Platão "Apologia de Sócrates". O filme data de 1971 e procura ser historicamente fiel, quer na reconstituição histórica do ambiente quer nas falas dos diferentes personagens, ao processo de acusação e condenação á morte do filósofo ateniense, em 399 a.C., tal como apresentado na Apologia.  

Excerto do filme "Socrates" de Rossellini


Sem comentários:

Enviar um comentário