terça-feira, 14 de abril de 2026

12 Homens em fúria ou como argumentar com homens furiosos

 “Doze Homens em Fúria” (“12 Angry Men”), de Sidney Lumet (1957) 

Quem, num júri de desconhecidos fechados numa sala de onde a maioria tem pressa de sair, se atreveria a impedir uma votação unânime para expor um ponto de vista, uma impressão, diferente dos outros 11?

Crítica de Aurélio Moreira in Jornal Público a 6 de Outubro de 2012

https://www.publico.pt/2012/10/06/p3/noticia/doze-homens-em-furia-12-angry-men-de-sidney-lumet-1957-1814776


Parece redundante, hoje em dia, procurar a companhia de pessoas furiosas, quando elas são tantas, por todo o lado – em casa, na rua, no trabalho, no desemprego, nas repartições de Finanças – mas é sempre curioso descobrir que as há ou houve por outras razões que não o empobrecimento rápido e forçado dos cidadãos para pagar as contas caóticas do Estado. As de que fala o filme de que falamos hoje são as 12 – apenas homens – que têm por dever reunir-se numa sala de tribunal, em Nova Iorque, para decidir se um rapaz de 18 anos é culpado de ter assassinado o próprio pai, condenando-o, se for essa a decisão, à morte na cadeira eléctrica.


O caso é simples, a decisão será rápida, prática, impessoal, burocrática, cada um cumprirá o seu dever ou, pelo menos, obterá a sensação do dever cumprido e seguirá a sua vida, excepto, muito provavelmente, o primeiro interessado nos resultados do procedimento, ou seja, o que lhe sofrerá as consequências. E seria assim – como, normalmente, é – se não houvesse um obstáculo: um dos 12, apenas um, que não está convencido da aparente simplicidade do caso nem da ligeireza com que se pode mandar legalmente matar alguém. E pede alguns minutos de ponderação e de partilha das dúvidas que na sua consciência subsistem, antes da condenação que parece inevitável daquele jovem criminoso ou inocente.

Mas quem, num júri de desconhecidos fechados numa sala de onde a maioria tem pressa de sair, se atreveria a impedir uma votação unânime para expor um ponto de vista, uma impressão, diferente dos outros 11? Não se trata de se pôr à frente de um tanque de guerra nem de correr em campo aberto debaixo de fogo inimigo, mas quem se atreveria? E quem é esse homem? E que acção pode ter sobre os outros?

É essa descoberta gradual que é fascinante. Anulado o factor de distracção em regra introduzido pelo cenário, restam os tipos humanos em presença, ora em conjugação, ora em oposição, representados por cada um dos homens. E não é nada fácil filmá-los e coreografá-los num espaço exíguo, de modo a não toldar esse exercício de observação, conservando uma naturalidade essencial para o todo funcionar, dando espaço e pretexto aos actores para desempenharem os seus papéis. E é o que eles fazem e o que nós temos para ver, através de um conjunto de“Doze Homens em Fúria” (“12 Angry Men”), de Sidney Lumet (1957) caras que podemos muito bem conhecer de outros filmes e séries da época, algumas até de “eternos secundários”, mas que aqui partilham o mesmo plano, o mesmo palco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Ed Begley, E. G. Marshall, Jack Warden, Martin Balsam, Jack Klugman, John Fiedler, Joseph Sweeney, Robert Webber, Edward Binns e George Voskovec, aqui ordenados pela relevância que atribuo às suas respectivas carreiras.


12 Homens em Fúria

Título Original: 12 Angry Men
Intérpretes: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Martin Balsam, Jack Warden
Realização: Sidney Lumet
Produção: Henry Fonda, Reginald Rose
Autoria: Reginald Rose (argumento)
Ano: 1957
Duração: 96 minutos

trailer: https://youtu.be/TEN-2uTi2c0?si=C5YlOv47bhrcJJKX

Comentário de David Furtado a 17 julho 2013 publicado em https://thewandrinstar.wordpress.com/2013/07/07/doze-homens-em-furia-de-sidney-lumet-os-12-gumes-da-justica/ (consulta a 14/04/2026)

"Doze Homens em Fúria começa com o final de um julgamento a que não assistimos e com as palavras do juiz: “Ouviram os testemunhos e a interpretação da lei no tocante a estes casos. É agora vosso dever reunirem-se e tentarem separar os factos da ficção. Um homem morreu. Está em jogo a vida de outro homem. Se existir uma dúvida legítima nas vossas mentes em relação à culpabilidade do acusado, devem trazer-me um veredicto de inocência. Se, contudo, não existir dúvida legítima, devem, em boa consciência, considerar culpado o acusado. Seja como for, o vosso veredicto tem de ser unânime. Enfrentam uma séria responsabilidade. Obrigado, meus senhores.”

Está em jogo a pena de morte, e os jurados retiram-se para a sua sala. Depois da conversa de circunstância, percebemos que estão todos de acordo, querem ir para casa e despachar o assunto. Começam a votar: “Muito bem. 11 votam culpado. Quem vota inocente? Um. Muito bem. Agora sabemos em que pé estamos.” “Caramba! Há sempre um”, comenta um jurado olhando para o homem que votou inocente, representado por Henry Fonda. É este homem, um arquiteto, simbolicamente vestido de branco, que questiona o julgamento. (Saberemos no fim que se chama ‘Davis’, já que não são dados nomes aos jurados, apenas números.) Os restantes 11 provocam-no:

“Acha mesmo que ele é inocente? Ouviu o que ele fez. O miúdo é um assassino perigoso. Apunhalou o próprio pai. Provaram-no de uma dúzia de maneiras diferentes no tribunal. Quer que lhe faça uma lista?”

“Não.”

“Então o que quer?”

“Só quero falar. Não é fácil levantar a mão e mandar um miúdo para a morte, sem falar antes sobre isso. Trata-se da vida de alguém. Não podemos decidir em cinco minutos. Suponham que estamos enganados?”

A Biblioteca do Congresso Americana adicionou, em dezembro de 2007, 25 filmes ao seu arquivo, ato que se destina a preservar estas obras para futuras gerações. Doze Homens em Fúria foi e é universalmente aclamado e considerado uma herança cultural nos Estados Unidos.