terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

OS SOFISTAS

 

Protágoras, 490a.c.-415a.c.Escola Sofística


Os grandes sofistas não são de proveniência ateniense. Estrangeiros, viajam de cidade democrática em cidade democrática, demorando-se apenas nas mais importantes, especialmente em Atenas. A variedade das figuras e dos estilos, torna difícil uma definição geral. (…) A expansão da deliberação democrática favorece o espírito crítico e as iniciativas e reivindicações individuais, exigindo, da parte daqueles que melhor posição têm, e pelo menos dos mais ambiciosos, a aprendizagem da manipulação retórica[1] das assembleias e a determinação dos ideias individuais e coletivos que nelas deve permanecer. Estas necessidades permitem compreender como no mundo grego do século V puderam aparecer os sofistas. Ora mais políticos como Protágoras de Abdera, ora mais retóricos como Górgias de Leontinos, ora mais preocupados em acumular conhecimentos técnicos como Hípias de Élis, tiveram em comum o pretenderem ensinar, a níveis mais ou menos distintos, segundo os casos, uma arte de viver e de vencer obstáculos na comunidade democrática. É difícil reconhecer-lhes doutrinas bem claras e porque comerciavam com o seu saber, tinham de interessar-se fundamentalmente pela exposição, argumentada de forma eficaz, das mais contraditórias concepções. O relativismo de Protágoras, o mais antigo e prestigiado dos sofistas, talvez seja a doutrina de um homem sem doutrina, que sabe quanto vale o por e o contra teóricos.

É preciso um novo modo de educação. Qual era, com efeito, o modo de formação tradicional? Ensinava-se os homens a serem bons cavaleiros, homens pios, respeitadores das divindades e da recordação dos antepassados. Isso não basta agora! É preciso saber falar. A palavra é doravante, aquela que permite a cada um, na Assembleia, nos processos, fazer valer o seu ponto de vista. É graças a ela que o cidadão pode defender a sua posição e a sua independência, que ele se impões na cidade.

A civilização da linguagem – assim chama Aristófanes[2] ao novo ensino. Abrem-se novas escolas, dirigidas por metecos, que suscitam uma afluência considerável. Os mais ilustres desses mestres, Górgias, Protágoras, Hípias, têm como único programa ensinar os seus alunos a bem falar de tudo, seja o que for, a defender com persuasão, seja que causa for.

 

François Châtelet, História da Filosofia



[1] A Retórica surgiu no século V, na Grécia Antiga, tendo inicialmente como seus principais cultores os sofistas. É uma arte do discurso, associada à argumentação e tendo como objetivo a persuasão. Assim, não tem que se associar a retórica diretamente à manipulação. Persuasão e manipulação são diferentes. Enquanto a persuasão visa a adesão do interlocutor apelando à sua racionalidade, a manipulação utiliza estratégias argumentativas por vezes falaciosas e visa a adesão do interlocutor “a qualquer custo”.

[2] Aristófanes é um dramaturgo grego, séc. V, a.c., autor de comédias que criticavam, satirizando, diversos aspetos da sociedade ateniense. Atacou, por exemplo, os sofistas, considerando-os como habilidosos que faziam o falso parecer verdadeiro, e o poder perigoso da linguagem quando utilizada por “demagogos”. O termo “demagogo” significava inicialmente “líder do povo”, sem conotação negativa. Esta foi sendo adquirida pela prática da utilização do discurso com a finalidade de obtenção do poder pessoal através de técnicas retóricas enganosas, o que Aristófanes critica. Em vez da utilização de uma argumentação racional para defender uma ideia, há a utilização de preconceitos e medos do povo, jogando com as suas emoções, com vista a provocar a sua adesão. O demagogo não tem preocupação com a verdade ou o justo, ou com os interesses do povo, tem apenas um projeto pessoal de domínio e obtenção do poder político, para o qual todos os meios servem, incluindo a mentira. Platão e Aristóteles classificarão os demagogos como “aduladores do povo”. O demagogo não é um líder, mas um oportunista e a sua má utilização da retórica corrompe a política e a democracia.

Obsv. - Notas da nossa responsabilidade.

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