Os grandes sofistas não são de
proveniência ateniense. Estrangeiros, viajam de cidade democrática em cidade
democrática, demorando-se apenas nas mais importantes, especialmente em Atenas.
A variedade das figuras e dos estilos, torna difícil uma definição geral. (…) A
expansão da deliberação democrática favorece o espírito crítico e as
iniciativas e reivindicações individuais, exigindo, da parte daqueles que
melhor posição têm, e pelo menos dos mais ambiciosos, a aprendizagem da
manipulação retórica[1] das assembleias e a
determinação dos ideias individuais e coletivos que nelas deve permanecer.
Estas necessidades permitem compreender como no mundo grego do século V puderam
aparecer os sofistas. Ora mais políticos como Protágoras de Abdera, ora mais
retóricos como Górgias de Leontinos, ora mais preocupados em acumular
conhecimentos técnicos como Hípias de Élis, tiveram em comum o pretenderem
ensinar, a níveis mais ou menos distintos, segundo os casos, uma arte de viver
e de vencer obstáculos na comunidade democrática. É difícil reconhecer-lhes
doutrinas bem claras e porque comerciavam com o seu saber, tinham de
interessar-se fundamentalmente pela exposição, argumentada de forma eficaz, das
mais contraditórias concepções. O relativismo de Protágoras, o mais antigo e prestigiado
dos sofistas, talvez seja a doutrina de um homem sem doutrina, que sabe quanto
vale o por e o contra teóricos.
É preciso um novo modo de educação. Qual
era, com efeito, o modo de formação tradicional? Ensinava-se os homens a serem
bons cavaleiros, homens pios, respeitadores das divindades e da recordação dos
antepassados. Isso não basta agora! É preciso saber falar. A palavra é
doravante, aquela que permite a cada um, na Assembleia, nos processos, fazer
valer o seu ponto de vista. É graças a ela que o cidadão pode defender a sua
posição e a sua independência, que ele se impões na cidade.
A civilização da linguagem – assim chama
Aristófanes[2]
ao novo ensino. Abrem-se novas escolas, dirigidas por metecos, que suscitam uma
afluência considerável. Os mais ilustres desses mestres, Górgias, Protágoras,
Hípias, têm como único programa ensinar os seus alunos a bem falar de tudo,
seja o que for, a defender com persuasão, seja que causa for.
François
Châtelet, História da Filosofia
[1]
A Retórica surgiu no século V, na Grécia Antiga, tendo inicialmente como seus
principais cultores os sofistas. É uma arte do discurso, associada à
argumentação e tendo como objetivo a persuasão. Assim, não tem que se associar
a retórica diretamente à manipulação. Persuasão e manipulação são diferentes.
Enquanto a persuasão visa a adesão do interlocutor apelando à sua
racionalidade, a manipulação utiliza estratégias argumentativas por vezes
falaciosas e visa a adesão do interlocutor “a qualquer custo”.
[2]
Aristófanes é um dramaturgo grego, séc. V, a.c., autor de comédias que
criticavam, satirizando, diversos aspetos da sociedade ateniense. Atacou, por
exemplo, os sofistas, considerando-os como habilidosos que faziam o falso
parecer verdadeiro, e o poder perigoso da linguagem quando utilizada por
“demagogos”. O termo “demagogo” significava inicialmente “líder do povo”, sem
conotação negativa. Esta foi sendo adquirida pela prática da utilização do
discurso com a finalidade de obtenção do poder pessoal através de técnicas
retóricas enganosas, o que Aristófanes critica. Em vez da utilização de uma
argumentação racional para defender uma ideia, há a utilização de preconceitos
e medos do povo, jogando com as suas emoções, com vista a provocar a sua
adesão. O demagogo não tem preocupação com a verdade ou o justo, ou com os
interesses do povo, tem apenas um projeto pessoal de domínio e obtenção do
poder político, para o qual todos os meios servem, incluindo a mentira.
Platão e Aristóteles classificarão os demagogos como “aduladores do povo”. O
demagogo não é um líder, mas um oportunista e a sua má utilização da retórica
corrompe a política e a democracia.
Obsv. - Notas da nossa responsabilidade.
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