segunda-feira, 23 de março de 2026

A ALEGORIA DA CAVERNA EM BANDA DESENHADA

 

Esta banda desenhada não é recente, mas continua atual...  Então, se substituirmos a TV por um telemóvel, ainda mais atual fica!

A ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO

 A alegoria, ou mito, da Caverna é um dos textos mais célebres de Platão (427 a.c.- 327 a.c.) e da História da Filosofia. Com esta história imaginada, Platão pretendeu facilitar a compreensão das sua teorias filosóficas. 

No entanto, esta história que facilmente se conta consegue adquirir significados múltiplos e sempre renovados.

Aqui transcrevemos o texto.

«Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
- Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?  E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles ?
  Sem dúvida.
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam? 
– É forçoso.
 – E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?
– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objetos, refletidas na água, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
- Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objetos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
 Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência viver daquela maneira.– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
– Com certeza
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão ? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam ?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.

A República de Platão, Livro VII, 514a-517b, trad. de Maria Helena Rocha Pereira

                                        

Remetemos, agora,  para esta animação a que o grande cineasta Orson Wells empresta a voz, no video original.




Alegoria da Caverna, com Orson Wells


terça-feira, 10 de março de 2026

ACERCA DA VERDADE - O RELATIVISMO DE PROTÁGORAS

 


ACERCA DA VERDADE - O RELATIVISMO DE PROTÁGORAS

 

«Pois afirmo que a verdade é como eu [Protágoras] escrevi. Pois cada um de nós é a medida do que é e do que não é, e no entanto cada um difere infinitamente do outro: para um é uma coisa e assim aparece, a outro é e aparece outra coisa. E estou longe de negar que exista a sabedoria e o homem sábio. Mas este mesmo a quem chamo sábio é aquele de nós que, quando as coisas são e lhe parecem más, as muda, de modo a aparecerem e serem boas. Contudo, não persigas este meu raciocínio pelas minhas palavras, mas tenta compreender mais claramente aquilo que digo. Recorda-te, pois, do que foi dito atrás, que, para quem está doente, aquilo que come parece e é amargo, mas para quem está saudável aparece e é o contrário. E não é preciso fazer mais sábio nenhum dos dois – pois não é possível – nem se deve acusar o doente de ser ignorante por ter esta opinião, nem o saudável de sábio por ter outra; mas deve fazer-se uma mudança no doente, porque é melhor o estado do outro. Do mesmo modo, também na educação se deve fazer uma mudança de um estado para outro melhor; mas o médico faz a mudança com remédios e o sofista com discursos. Por conseguinte, não fez com que o que tem uma opinião falsa tivesse posteriormente uma opinião verdadeira (…). Mas penso que uma má disposição de ânimo faz surgir opiniões a ela conformes e uma boa, outras diversas, e também em consonância com elas, representações a que alguns chamam verdadeiras; mas eu chamo a umas melhores que a outras, mas não mais verdadeiras. (…) E afirmo que os oradores sábios e bons fazem com que as coisas benéficas pareçam ser justas às cidades, em vez de defeituosas. Pois aquilo que a cada cidade parece justo e belo é isso para ela, enquanto assim o determinar. Mas o sábio é aquele que faz serem e parecerem benéficas cada uma das coisas que para os outros são defeituosas. E, pela mesma ordem de ideias, também o sofista, assim, capaz de instruir os que são ensinados por ele, é sábio e merece muito dinheiro da parte dos que educa. E, deste modo, uns são mais sábios do que outros e ninguém tem uma opinião falsa.»

 

Platão, Teeteto, trad.de Adriana Nogueira e Marcelo Boeri, Lisboa, Ed.Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, 166d-167c.

Sócrates refuta Meleto

 

11. Julgo que acerca das coisas de que os meus antigos acusadores me acusaram disse já o bastante. Agora vou tentar defender-me do bom Meleto, o amigo da cidade, como se diz, e dos meus novos acusadores. Tal como fiz para os outros, pego no texto que juraram. É assim: declara-se que Sócrates incorre em falta por corromper os jovens e por não acatar os deuses que a cidade acata, mas divindades novas.

A acusação é esta; investiguemos cada um destes pontos. Afirma-se que eu cometo crime contra o que é justo, corrompendo os jovens. E eu, homens de Atenas, digo-vos que Meleto comete injustiça por brincar com coisas sérias, atirando os homens para a luta e fingindo zelar e cuidar de coisas de que nunca cuidou, nem pouco nem muito. Que isto é assim, tentarei também mostrar-vos.

12. Diz-me cá, Meleto, achas muito importante que os homens se tornem tão bons quanto possível?

«Acho.»

Vamos, diz então a estes juízes quem os faz melhores. É evidente que sabes, pois te preocupas com isso. Já descobriste quem os corrompe, como dizes, uma vez que me trouxeste diante dos juízes e me acusas. Agora, diz, revela quem é que os faz melhores. Calas-te Meleto, não consegues falar? Não sentes como o teu silêncio é vergonhoso e constitui prova bastante de não te preocupares com o assunto? Diz-me, ó excelente! quem é que os faz melhores?

«As leis.»

Não foi isso que te perguntei, meu amigo. Perguntei-te que homem os faz melhores, que homem melhor que todos conhece as leis?

«Estes homens, Sócrates, os juízes.»

Que dizes, Meleto? São estes homens capazes de educar os jovens e de os fazer melhores?

«Mais que todos.»

E todos eles são capazes, alguns apenas, ou nenhuns?

«Todos.»

Por Hera, que boa resposta! Que abundância há de homens úteis! E estes que nos ouvem, fazem-nos melhores, ou não?

«Também fazem.»

E os Conselheiros?

«Os Conselheiros também.»

Meleto, e a assembleia? Os membros da assembleia corrompem os jovens? Ou também eles os fazem melhores?

«Também esses.»

Portanto, todos os Atenienses, ao que parece, fazem os jovens bons e belos, a não ser eu; eu e só eu os corrompo. É isso que dizes?

«É o que digo.»

Condenas-me a uma grande infelicidade. Mas responde-me: parece-te que se dá o mesmo com os cavalos? Todos os homens os fazem melhores, enquanto um apenas os corrompe? Ou, apenas um ou muito poucos – os tratadores de cavalos – são capazes de os melhorar, enquanto a maioria dos homens, se os trata, os corrompe? Não é isso verdade, tanto dos cavalos, quanto dos outros animais? Sem dúvida que é, quer tu e Ânito o afirmem ou neguem. E seria uma imensa felicidade para os jovens, se apenas um homem os corrompesse, enquanto os outros lhe fazem bem. Contudo, Meleto, mostras bastante que não te preocupaste com os jovens; indicas claramente o teu desinteresse, por nunca teres cuidado dos assuntos que me acusas.

13. Mas diz-nos ainda, meu caro Meleto: é melhor habitar entre concidadãos bons ou maus? Responde-me meu amigo, pois não te pergunto nada que seja difícil. Não fazem os homens vis mal àqueles que sempre estão perto deles, enquanto os bons fazem bem?

«Certamente.»

E há alguém que prefira ser prejudicado a ser beneficiado pelos seus companheiros? Responde, bom homem, pois a lei ordena que respondas. Há alguém que deseje que lhe façam mal?

«Decerto que não.»

Bem. Quando me acusas de corromper os jovens e de os tornar piores, acusas-me de o fazer voluntária ou involuntariamente?

«Voluntariamente.»

O quê, Meleto, com a idade que tens já és mais sábio que eu, com a minha. Já reconheceste que os maus fazem sempre mal aos que têm perto de si e os bons fazem sempre bem? E terei eu chegado a tal ponto de ignorância que até isto ignoro, que, se fizer mal a um companheiro, corro o perigo de receber dele algum mal? E de tal maneira o ignoro que, pelo que dizes, faço esse mal voluntariamente?

Não posso deixar-me convencer disso, Meleto, nem creio que se passe com qualquer outro homem! Ou eu não corrompo, ou, se corrompo, corrompo involuntariamente. Em qualquer dos casos, estás a mentir. E, se os corrompo involuntariamente, a lei não manda acusá-los em tribunal, mas instruí-los e censurá-los particularmente. Porque é evidente que, se me ensinasses, eu deixaria de fazer o que involuntariamente faço. Mas tu fugiste de vires ter comigo e me instruíres. Não o quiseste fazer e agora acusas-me aqui, onde a lei manda acusar os que precisam de castigo e não de instrução.



Platão, Apologia de Sócrates, trad. de José Trindade Santos, Lisboa, Ed. Imprensa Nacional, 1992, 24d-26a


E para quem quiser acompanhar este texto com  imagem, aqui deixo um excerto do filme do cineasta italiano Roberto Rossellini, "Socrates", com base na obra de Platão "Apologia de Sócrates". O filme data de 1971 e procura ser historicamente fiel, quer na reconstituição histórica do ambiente quer nas falas dos diferentes personagens, ao processo de acusação e condenação á morte do filósofo ateniense, em 399 a.C., tal como apresentado na Apologia.  

Excerto do filme "Socrates" de Rossellini


segunda-feira, 2 de março de 2026

SÓCRATES, O «MOSCARDO»

 

Gettyimages.pt

No meio da agitação da cidade, que produz, ao mesmo tempo, disparates e obras-primas, Sócrates vai passeando e falando. À primeira vista o seu comportamento é o de um sofista, pois fala de tudo, seja o que for; mas pela sua parte não abre uma escola. Não ensina; o que diz é ao sabor das conversas que enuncia, sem pedir que lhe paguem, sem sequer exigir que o escutem. Á juventude interessa-se muito pelos seus discursos. Porque fala, se nenhum interesse pessoal tem em fazê-lo?

A esta pergunta responde a defesa que de si próprio fez Sócrates, durante a primeira parte do seu processo e que Platão gravou na Apologia.(…) Outrora, Querofonte, um amigo de Sócrates, resolveu consultar o oráculo de Delfos: perguntou-lhe se haveria um homem mais sábio do que Sócrates. Ora o deus respondeu que não havia. Esta declaração colocou Sócrates no maior dos embaraços. “Que poderia querer dizer o deus? Qual seria o sentido deste enigma? Porque, no fim de contas, eu não tenho nem muito nem pouco, consciência, no mais profundo de mim, de ser um sábio. Que quererá ele dizer ao declarar que eu sou o mais sábio dos homens? Com efeito, é certo que ele não mente, pois tal não lhe é permitido” (Apologia de Sócrates, 21-b). Decidiu, pois, pôr o oráculo à prova. Interrogou primeiro um homem político, isto é, um daqueles cuja profissão é guiar os seus semelhantes. Ao sair desta conversa, Sócrates teve de concordar. “Eis um homem que é menos sábio do que eu. É possível, com efeito, que não saibamos nada, nem um nem outro, de útil. Mas ele nada sabendo, julga que sabe, enquanto eu, embora nada saiba, não julgo saber! Pareço, em todo o caso, ser mais sábio do que aquele, pelo menos num pequeno ponto, precisamente este: que aquilo que eu não sabia também não julgava sabê-lo”(Ibidem, 21-d).

As diligências junto dos poetas levam-no a uma convicção análoga. Pois “trata-se de pessoas que dizem muitas coisas belas mas que não têm nenhum conhecimento preciso sobre as coisas que dizem” (Ibidem, 22-c).

Quanto aos que exercem ofícios, possuem um saber especializado, mas enganam-se ao julgar que, porque exercem a sua técnica na perfeição, são também no resto, de uma sabedoria completa.

Sócrates tem que se convencer: a divindade disse a verdade. Ele é realmente o mais sábio. E, no entanto, daquilo que sente – o facto de não ser sábio – também não pode recusar a evidência. Assim, convém que se interprete o oráculo: o que ele quis dizer é que a sabedoria humana “tem pouco valor ou talvez mesmo nenhum”; mas, sobretudo, ele fixou para Sócrates uma missão: procurar por toda a parte o homem sábio e, se ele não existir, denunciar a falsa sabedoria. A sua tarefa: é a de fazer parir as suas almas, como fazem as parteiras em relação ao corpo das mulheres. No que a ele se refere nada procria: “Em mim não há gestação de saber, e a censura que me foi feita por muita gente, de fazer perguntas aos outros e nada produzir por mim próprio sobre nenhum assunto, por não ser possuidor de qualquer saber, é uma censura com fundamento” (Teeteto, 150-c).

Sócrates comporta-se como um “moscardo”[1], espicaça as consciências adormecidas no sono fácil das ideias feitas. Essa atitude tem, evidentemente, para ele a consequência de ser detestado geralmente, pois dirige-se a todas as camadas da sociedade para, indiferentemente lhes contestar as certezas. Aliás, basta considerar a profissão daqueles que contribuíram para a sua acusação para se ter a certeza de que não deixa ninguém em paz. Encontramos Ânito a representar os políticos, Meleto, os poetas, Lícon, os oradores e os professores de retórica. O processo é a reação da cultura adquirida contra um pensamento que recusa todo o adquirido, seja ele antigo ou de recente data.(…)

A conclusão dos diálogos socráticos é em geral negativa. Aparentemente as duas partes em diálogo saem a perder. O homem seguro de si que, solicitado por Sócrates, vinha para o diálogo com as suas respostas (ou com perguntas cujas respostas ele estava convencido que conhecia) e fingia prestar atenção à conversa sai alquebrado, irritado ou decidido a andar para a frente – o que não é frequente -, ora a troçar ou a detestar o ironista que com tanta exatidão destrói as suas crenças. (…) À opinião, ele não opôs, como um desses sofistas em moda, outra opinião. Provou a ineficácia de toda a atitude mental, de toda a conduta baseada na opinião. Ele pôs em evidência o vazio da opinião.

 

CHÂTELET, François (dir.), História da Filosofia, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1974, vol. 1, pp.74-77.

 

 



[1] “(…) Se me matardes, não encontrareis com facilidade outro como eu, que – para falar gracejando – se agarra à cidade como um moscardo a um cavalo forte e de bom sangue que, por causa do tamanho, precisa de ser despertado por um aguilhão. Parece-me que é como se o deus me tivesse preso à cidade, para que eu acorde, convença e exorte cada um de vós durante todo o dia, em qualquer lugar e sem afrouxar o cerco. Outro como eu não vos aparecerá facilmente. Se, pois, tendes confiança em mim, poupai-me. Mas talvez, como quem é acordado alta noite, persuadidos por Ânito, vos irriteis comigo e, movidos pela cólera, me mateis sem pensar. Passareis então o resto da vida a dormir, a menos que o deus envie algum outro para vos inquietar”. Apologia de Sócrates, 30e.