segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sócrates na pintura de Jacques Louis David

 
O pintor J. Louis David, em 1787, representa nesta célebre pintura o filósofo Sócrates nos momentos que antecedem a sua morte.


Sócrates foi condenado pelos juízes de Atenas após ter sido acusado de não acreditar nos deuses da cidade e de corromper os jovens. Apesar de mostrar o carácter infundado das acusações e alertar para a injustiça que estava a ser cometida, Sócrates aceitou com serenidade a decisão do tribunal. 

A pintura de J. Louis David ilustra a heroicidade do filósofo, a sua aceitação da morte, a sua figura tranquila apontando para cima, sugerindo a imortalidade da alma,  contrastando com a postura cabisbaixa, com a tristeza dos seus discípulos, nomeadamente Críton e Platão (embora a presença física de Platão no cárcere com outros discípulos de Sócrates não corresponda à verdade histórica).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Pensamento racional

A filosofia e a ciência começam por classificar-se como formas de pensamento racional em oposição ao pensamento mítico. Os primeiros filósofos eram também “cientistas”, procurando explicações lógicas e racionais para aquilo que observavam. Vemos que:

Tales, séculos VII-VI a.C., o dito primeiro filósofo, era astrónomo e matemático. Sabe-se que previu um eclipse do sol em 585 a. C. e que calculou a altura da pirâmide de Quéops, a partir da sua sombra. Ainda hoje se mantém válido o teorema de Tales.

Pitágoras continua a ser conhecido principalmente pelo seu contributo matemático, o teorema de Pitágoras.

Já no período clássico, Platão, séc. IV a.C., valorizava o pensamento matemático de tal forma que o considerava propedêutico para a filosofia. “Não entres se não és geómetra” é a inscrição à entrada da Academia de Platão, a escola fundada por si.

Aristóteles, séc. IV a.C., escreveu o que se considera ser o primeiro tratado de zoologia com a primeira classificação dos seres vivos.

Descartes, filósofo francês, século XVII, foi o inventor da Geometria Analítica e poderíamos continuar...

O termo ciência, originariamente, significa um saber racional, explicativo, teórico, organizado e sistematizado. Neste sentido a filosofia foi considerada ciência e, pelas características do seu objeto, a totalidade do real, foi durante séculos considerada a ciência superior ou suprema, englobando todas os saberes. O saber humano considerava-se como pertencendo a uma unidade, num sistema hierarquizado de que a filosofia constituía a ciência primeira, a ciência dos princípios e dos fundamentos.

Ao mesmo tempo, considerava-se como a “mãe das ciências”, visto que todas os saberes parcelares surgiram do seu seio, tendo-se autonomizado progressivamente. Vemos a área de conhecimento hoje conhecida por “Física” ter sido durante muito tempo designada “Filosofia Natural”. É assim que aparece ainda no título da importante obra de Física de Isaac Newton (século XVII-XVIII) “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” (1687).

A separação e a distinção entre filosofia e ciência foi sendo estabelecida progressivamente a partir do trabalho de Galileu (século XVII) e da descoberta de um método de análise da realidade baseado na experiência e na abordagem matemática dos fenómenos físicos observados. Surgia o método globalmente designado como experimental, que determinou não só o surgimento da Física como ciência autónoma, mas também se afirmou como o procedimento científico de referência. Doravante, para qualquer saber aceder ao estatuto de ciência teria que adotar a metodologia experimental. Este método científico, se bem que tenha sofrido ajustamentos e se tenha de adaptar a cada objeto específico de estudo e investigação, continua a caracterizar-se pelo rigor nos procedimentos de observação e testagem experimental, pelo vocabulário preciso e linguagem técnica, pela participação e controle dos pares no âmbito de comunidade científica. Assim, se a ciência for definida pela utilização da metodologia experimental, a filosofia não pode ser considerada ciência. A natureza dos problemas da filosofia não suporta uma abordagem experimental.  Não há ciência experimental que nos possa dizer o que é o bem e o mal, o justo e o injusto…A filosofia continua a ter como método a reflexão, a crítica, o pensamento rigoroso, a argumentação lógica e racional.

Hoje em dia, a Filosofia e a Ciência constituem-se como campos de saber que utilizam métodos distintos de abordagem do real. Continuam a ser consideradas formas racionais de compreensão e explicação da realidade, nas suas diversas dimensões, ambas nascidas da mesma busca pela verdade.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Tales de Mileto - O primeiro filósofo

 Na nossa última publicação, ficámos com a pergunta que os primeiros filósofos fizeram e para a qual procuraram resposta.


Haverá um elemento primordial a partir do qual tudo é gerado?

imagem retirada de http://www.infopedia.pt//apoio/recursos/rfa_2035.jpg
Quem primeiro respondeu a esta pergunta, segundo sabemos, foi Tales.
Tales, nascido na colónia grega de Mileto, no século VII a. C.. Tales de Mileto, portanto.

Tales é também conhecido como astrónomo e matemático. Quem não conhece (pelo menos de nome!) o teorema de Tales? Mas Tales não se ficou apenas (!) pela resolução de problemas particulares, como por exemplo, calcular a altura de uma pirâmide no Egipto ou prever um eclipse do Sol. 

Não, Tales queria encontrar resposta para um problema bem mais complexo como o da origem do Cosmos, palavra grega que continua a significar para nós Mundo ou Universo. O que o distingue como filósofo é precisamente esta necessidade de encontrar uma explicação total, que possa dar conta da existência do universo e das coisas nele existentes. 
Tales rejeitou as explicações míticas, narrativas que reconduziam a origem do universo e das coisas a uma ação de elementos acima da natureza (dizemos sobrenaturais) deuses ou divindades com poder de criar e agir sobre os fenómenos físicos. Para a mesma questão, explicações diferentes, a cosmologia, explicação racional, substitui a cosmogonia, explicação mítica. 
Baseado na observação dos fenómenos naturais e confiante na sua própria e humana capacidade de compreensão e de explicação, dizemos, na razão, Tales considerou que tudo tinha tido origem na água e que a água era elemento constituinte de todas as coisas.  
Enquanto elemento constituinte de todas as coisas a água seria entendida como substância, quer dizer aquilo que subjaz em tudo e aquilo que permanece. 
Tales tinha observado que a água, elemento natural, era indispensável à vida, na sua passagem pelo Egipto teria observado como os campos depois das cheias se tornavam férteis...Além disso, a água pode assumir os três estados da matéria, sólido, líquido e gasoso...

Assim, a água seria o elemento primordial (arquê) do qual tudo se teria originado e a água estaria presente em todas as coisas. 

Para os primeiros filósofos há uma substância de que todas as coisas são feitas e há um princípio de onde todas derivam. Para Tales, teria sido a água, para Anaxímenes, o ar, para Pitágoras, o número...

Todos os filósofos gregos antes de Sócrates, filósofos pré-socráticos, tinham como centro do seu estudo o Cosmos, o mundo físico, daí o terem sido designados também como cosmólogos, físicos ou fisiólogos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Onde e quando nasceu a Filosofia?

Imagem retirada de: https://www.educabras.com/aula/grecia-antiga


«Vemos a filosofia como uma forma completamente diferente de pensar, que surgiu aproximadamente em 600 a.C. na Grécia. (...)
Para compreendermos o pensamento dos primeiros filósofos, temos de compreender igualmente o que significa ter uma conceção mítica do mundo. Tomaremos como exemplo algumas conceções míticas da Europa do Norte.(...)
Certamente já ouviste falar de Thor e do seu  martelo. Antes de o cristianismo chegar à Noruega, os homens, aqui no Norte, acreditavam que Thor viajava pelo céu num carro puxado por dois bodes. Quando ele brandia o seu martelo, seguiam-se raios e trovões. (...)
Quando troveja ou relampeja, também chove. Isso podia ser indispensável à vida para os camponeses da época dos Vikings. Por isso, Thor era venerado como deus da fertilidade.
A resposta mítica à pergunta porque é que chove, era: Thor brandiu o seu martelo. E quando a chuva vinha, as sementes germinavam e cresciam nos campos. (...)
Passámos um olhar sobre a mitologia nórdica, mas havia representações míticas como estas em todo o mundo antes de os filósofos começarem a criticá-las. Também os Gregos tinham uma conceção mítica do mundo, quando surgiram os primeiros filósofos. Durante séculos, uma geração transmitia à seguinte as histórias dos deuses. Na Grécia, as divindades chamavam-se Zeus e Apolo, Hera e Atena, Dionísio e Asclépio, para citar apenas alguns. (...)

Nesta época, os Gregos fundaram muitas cidades-estado na Grécia e nas suas colónias da Itália meridional e da Ásia Menor. Aí os escravos executavam todo o trabalho físico, e os cidadãos livres podiam dedicar-se à política e à cultura. Com estas condições de vida, a maneira de pensar dos homens mudou: cada indivíduo podia colocar a questão de como a sociedade devia ser organizada. Do mesmo modo, podia também colocar questões filosóficas, sem ter de recorrer aos mitos tradicionais.
Dizemos que se deu um desenvolvimento de um modo de pensar mítico para um género de reflexão baseada na experiência e na razão. O objetivo dos primeiros filósofos gregos era encontrar explicações naturais para os fenómenos da natureza. (...)

    Haverá um elemento primordial a partir do qual tudo é gerado?

GAARDER, J. O Mundo de Sofia, Lisboa, Editorial Presença, 1998, pp. 26-32



terça-feira, 28 de outubro de 2025

Todos somos filósofos?


O filósofo alemão Markus Gabriel (n.1980)

Precisamos de um pensamento bem informado, estruturado, e que não seja o pensamento do “especialista”. Esse pensamento é o da filosofia. De certa maneira, todos os seres são filósofos, mas não sabem. Todos querem saber se somos agregados de célula ou imortais. Essas questões a respeito de quem somos são filosóficas. Precisamos é de mais filosofia no espaço político.

Mas na filosofia trata-se de uma reflexão que, em princípio, não tem nenhuma meta além da reflexão, trocar ideias em torno de uma questão sem querer nada com isso, o que é um conceito importante da liberdade: a ideia de um pensamento sem fim que nos liberta, que produz conhecimento e autoconhecimento. É uma forma de liberdade e de resistência. Por isso o grande génio da Filosofia, Sócrates, resistiu ao sistema político da democracia grega ao insistir que ele não sabia nada.

Um critério para uma sociedade mais justa deveria incluir o direito humano a ter tempo na vida para discutir a questão de quem somos. Quem não tem sequer tempo para isso jamais poderá viver uma “boa vida”. Para mim é um imperativo categórico que haja espaço de educação e reflexão para todos. Sou universalista radical nesse sentido. Mas é difícil chegar com os pressupostos económicos em vigor.

Excertos de uma entrevista ao Jornal Globo, que pode ser vista aqui: 

'A ideologia é de um tipo de fim do mundo', diz o filósofo Markus Gabriel - Jornal O Globo

O que é "criticar"?

José Barata-Moura, filósofo português, n. 1948

Criticar não é dizer-mal; é procurar ver bem. Tão-pouco criticar é contrapor, de um modo abstrato e mecânico, enunciações que entre si se excluem. (…) A crítica é um exame: um fazer passar pelos crivos da racionalidade, e do discernimento, tudo aquilo que imediatamente se nos apresenta (…) como inquestionável.

Há que cuidar de um estabelecimento correto dos problemas. A labuta do pensar não visa simplesmente as respostas que, em prémio, hão-de obter-se. Precisa de madrugar. Começa mais cedo. Pela elaboração dos questionários. As «soluções» não caem do céu. De paraquedas. Por inspiração funda de alguma corrente de ar benfazeja. Rodopiando no espirro incandescente de uma revoada de luz, ou no piar de um passarinho. As vias resolutórias engendram-se, surgem, e transpiram, de dentro de uma problemática que lhes define um horizonte. Confirma-se que os filósofos parecem ter predileção pelo acionamento de uma estranha maquineta que dá pelo nome sugestivo de «complicómetro». Mas não é porque eles estejam possuídos por uma indebelável mania de ensarilhar os lotes. O sarilho está metido no próprio enredamento das coisas. E para desenvencilhar é preciso trazê-lo à mastigação do pensamento.

Texto completo aqui:

Philosophica 45 r.indd (ul.pt)

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Dicionário Filosófico - Dogmatismo

Derivado de «Dogma, do grego dokein, termo, opinião. O uso deste termo refere-se ao domínio da filosofia e aplica-se em dois sentidos: de modo restrito, remete para o problema do conhecimento, sendo que dogmático é aquele que afirma ser possível o conhecimento do real com certeza, neste sentido o dogmatismo remete para o problema do conhecimento e opõe-se a ceticismo; noutro sentido, de modo mais lato, aplica-se a qualquer doutrina, teoria, ideia, que seja aceite sem a devida fundamentação, pois normalmente exige-se que a fundamentação seja racional. (...)

O famoso preceito de Sócrates - Só sei que nada sei - é significativo do esforço constante que deve presidir à filosofia, o de recusar um saber já feito que o sujeito não possa iluminar por si mesmo. Em Descartes é evidente o esforço por não aceitar o argumento de autoridade, radicando qualquer certeza relativamente ao problema do conhecimento no próprio sujeito, através da dúvida metódica.»

dogmatismo na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.pt/artigos/$dogmatismo [visualizado em 2025-10-27 15:32:46].

Num sentido geral, o dogmatismo é a atitude de não aceitar debater racionalmente ideias tomadas como verdades inquestionáveis. A atitude dogmática é caracterizada pela inflexibilidade e rigidez intelectuais.
O dogmatismo caracteriza o senso comum, na medida em que este é composto por um conjunto de crenças, ideias, hábitos... adotados e aceites de forma passiva e acrítica.