terça-feira, 28 de outubro de 2025

Todos somos filósofos?


O filósofo alemão Markus Gabriel (n.1980)

Precisamos de um pensamento bem informado, estruturado, e que não seja o pensamento do “especialista”. Esse pensamento é o da filosofia. De certa maneira, todos os seres são filósofos, mas não sabem. Todos querem saber se somos agregados de célula ou imortais. Essas questões a respeito de quem somos são filosóficas. Precisamos é de mais filosofia no espaço político.

Mas na filosofia trata-se de uma reflexão que, em princípio, não tem nenhuma meta além da reflexão, trocar ideias em torno de uma questão sem querer nada com isso, o que é um conceito importante da liberdade: a ideia de um pensamento sem fim que nos liberta, que produz conhecimento e autoconhecimento. É uma forma de liberdade e de resistência. Por isso o grande génio da Filosofia, Sócrates, resistiu ao sistema político da democracia grega ao insistir que ele não sabia nada.

Um critério para uma sociedade mais justa deveria incluir o direito humano a ter tempo na vida para discutir a questão de quem somos. Quem não tem sequer tempo para isso jamais poderá viver uma “boa vida”. Para mim é um imperativo categórico que haja espaço de educação e reflexão para todos. Sou universalista radical nesse sentido. Mas é difícil chegar com os pressupostos económicos em vigor.

Excertos de uma entrevista ao Jornal Globo, que pode ser vista aqui: 

'A ideologia é de um tipo de fim do mundo', diz o filósofo Markus Gabriel - Jornal O Globo

O que é "criticar"?

José Barata-Moura, filósofo português, n. 1948

Criticar não é dizer-mal; é procurar ver bem. Tão-pouco criticar é contrapor, de um modo abstrato e mecânico, enunciações que entre si se excluem. (…) A crítica é um exame: um fazer passar pelos crivos da racionalidade, e do discernimento, tudo aquilo que imediatamente se nos apresenta (…) como inquestionável.

Há que cuidar de um estabelecimento correto dos problemas. A labuta do pensar não visa simplesmente as respostas que, em prémio, hão-de obter-se. Precisa de madrugar. Começa mais cedo. Pela elaboração dos questionários. As «soluções» não caem do céu. De paraquedas. Por inspiração funda de alguma corrente de ar benfazeja. Rodopiando no espirro incandescente de uma revoada de luz, ou no piar de um passarinho. As vias resolutórias engendram-se, surgem, e transpiram, de dentro de uma problemática que lhes define um horizonte. Confirma-se que os filósofos parecem ter predileção pelo acionamento de uma estranha maquineta que dá pelo nome sugestivo de «complicómetro». Mas não é porque eles estejam possuídos por uma indebelável mania de ensarilhar os lotes. O sarilho está metido no próprio enredamento das coisas. E para desenvencilhar é preciso trazê-lo à mastigação do pensamento.

Texto completo aqui:

Philosophica 45 r.indd (ul.pt)

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Dicionário Filosófico - Dogmatismo

Derivado de «Dogma, do grego dokein, termo, opinião. O uso deste termo refere-se ao domínio da filosofia e aplica-se em dois sentidos: de modo restrito, remete para o problema do conhecimento, sendo que dogmático é aquele que afirma ser possível o conhecimento do real com certeza, neste sentido o dogmatismo remete para o problema do conhecimento e opõe-se a ceticismo; noutro sentido, de modo mais lato, aplica-se a qualquer doutrina, teoria, ideia, que seja aceite sem a devida fundamentação, pois normalmente exige-se que a fundamentação seja racional. (...)

O famoso preceito de Sócrates - Só sei que nada sei - é significativo do esforço constante que deve presidir à filosofia, o de recusar um saber já feito que o sujeito não possa iluminar por si mesmo. Em Descartes é evidente o esforço por não aceitar o argumento de autoridade, radicando qualquer certeza relativamente ao problema do conhecimento no próprio sujeito, através da dúvida metódica

dogmatismo na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.pt/artigos/$dogmatismo [visualizado em 2025-10-27 15:32:46].

Num sentido geral, o dogmatismo é a atitude de não aceitar debater racionalmente ideias tomadas como verdades inquestionáveis. A atitude dogmática é caracterizada pela inflexibilidade e rigidez intelectuais.
O dogmatismo caracteriza o senso comum, na medida em que este é composto por um conjunto de crenças, ideias, hábitos... adotados e aceites de forma passiva e acrítica.

O valor da filosofia

   
O valor da filosofia, em grande parte, deve ser buscado na sua mesma incerteza. Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que se derivaram do senso comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele, os objectos habituais não erguem problemas, e as possibilidades infamiliares são desdenhosamente rejeitadas. Pelo contrário, quando começamos a filosofar, imediatamente caímos na conta (…) de que até os objectos mais vulgares conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta. A filosofia, se bem que incapaz de nos dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta às variadas dúvidas que ela própria evoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Embora diminua, por consequência, o nosso sentimento de certeza no que diz respeito ao que as coisas são, aumenta em muitíssimo o conhecimento a respeito do que as coisas podem ser; varre o dogmatismo, um tudo-nada arrogante dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o sentimento de admiração, porque nos mostra as coisas que nos são costumadas num determinado aspecto que o não é.


Russell, Os Problemas da Filosofia, Coimbra, Arménio Amado, 1980, p. 236

domingo, 26 de outubro de 2025

A importância da filosofia




Viver sem filosofar é na verdade ter os olhos fechados, sem nunca se esforçar por os abrir; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é de modo nenhum comparável à satisfação que dá o conhecimento das coisas que se descobrem por meio da filosofia; e, enfim, este estudo é mais necessário para orientar as nossas ações nesta vida do que o uso dos nossos olhos para guiar os nossos passos.

         Descartes, "Princípios da Filosofia"(1644).

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Epicuro e a vida feliz

Alain de Botton, escritor atualmente a desenvolver o seu trabalho no Reino Unido, é o autor desta série documental, «Filosofia: um guia para a felicidade», em que apresenta um conjunto de filósofos e nos mostra como, independentemente da época em que surgiram, as suas propostas e a reflexão que sobre elas possamos fazer nos ajudam a ser capazes de viver melhor.

Deixamos aqui a proposta de Epicuro, filósofo do século IV a. C., período helenístico  (314a.c.-270 ou 271a.c.), tal como nos é apresentada por Alain de Botton.


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Há uma idade boa para filosofar? O que diz Epicuro




Que ninguém, por ser jovem, tarde em filosofar nem, por ser velho, se canse da filosofia. Porque nunca se é nem demasiado jovem nem demasiado velho para alcançar a saúde da alma. O que diz que a hora de filosofar ainda não chegou, ou que já passou, é semelhante ao que diz que a hora de ser feliz ainda não chegou, ou que esta hora já findou. Que ninguém, por ser jovem, tarde em filosofar nem, por ser velho, se canse da filosofia. Por conseguinte, tanto o jovem como o velho devem filosofar, um para que, apesar de a idade avançar sobre ele, se conserve jovem em bens, por causa da alegria que sente em relação ao passado, o outro para que, embora jovem, possa simultaneamente amadurecer graças ao seu destemor diante do futuro. Convém, por isso, meditar sobre as coisas que dão origem à felicidade, pois quando ela está presente temos tudo, enquanto que se está ausente tudo fazemos para a alcançar.
....................................................................................................................................................
É por esta razão que dizemos que o prazer é o princípio e o fim da vida feliz. Pois é ele que reconhecemos com o bem primeiro e natural, a partir do qual fazemos todas as escolhas e rejeições, e é a ele que nos referimos quando julgamos qualquer bem tomando o sentimento como critério. Ora é justamente porque este é o bem primeiro e natural que não escolhemos qualquer prazer, antes, por vezes, desprezamos muitos, sempre que deles resulte um desprazer maior para nós.

Epicuro, «Carta a Meneceu», in Cartas, Máximas e Sentenças, Lisboa, Ed.Sílabo, 2009, p.122 e 129.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

"Crítica" e "crise"

A palavra "crítica" é dos vocábulos mais densos que conheço. Tem o significado vulgar e genérico de "julgamento depreciativo" e um significado mais restrito e primeiro de "análise", "exame racional", que pode conduzir, num segundo momento, a um juízo valorativo, positivo ou negativo. É normalmente este último sentido que, agora numa perspetiva mais técnica, está associado à crítica literária, à crítica de cinema, etc. É também este o sentido de crítica associada à atitude e atividade filosóficas. Assim, num sentido geral, embora especializado, está diretamente ligada à Filosofia, definida amiúde como "reflexão crítica" e, nesta, assume ainda maior rigor técnico na teoria do conhecimento a partir de Kant.

Mas há também um sentido, relativamente usual, que a liga a "crise".  Por exemplo, é relativamente comum a referência à adolescência como período crítico do desenvolvimento humano, caracterizado por. momentos de crise.  É esta relação que melhor evidencia o que originalmente os liga. Na verdade, os termos "crítica" e "crise" têm raízes comuns. Ambos derivam de "krinein", verbo grego que designa a ação de peneirar, filtrar, selecionar. E é deste modo que as pontas se unem. Em qualquer circunstância, em qualquer dos significados aludidos, podemos ver que o termo "crítica" remete para a capacidade de selecionar. Assim se separa o trigo do joio, se distingue o bom do mau, o verdadeiro do falso... É por isso que só a crítica nos permite pensar sobre o mundo, o conhecimento e nós próprios, numa atitude incansável de permanente análise, de contínuo discernimento. E é precisamente essa capacidade de discernir e decidir que os tempos de crise convocam. Porque pelo mesmo ato de seleção e escolha se decide o caminho de renovação. Toda a crise traz com ela o horizonte no qual se resolve.

Grandes filósofos - Aristóteles

 

Aristóteles

(384-322 a. C.) Um dos mais influentes filósofos de sempre. Nasceu em Estagira, no norte da Grécia. Foi discípulo de Platão em Atenas e mestre de Alexandre Magno, na Macedónia. Depois da morte de Platão, fundou em Atenas a sua própria escola, a que deu o nome de Liceu. Os seus interesses eram os mais variados. Não houve quase nenhum domínio do conhecimento sobre o qual não tivesse escrito e atribuía uma grande importância à observação da natureza. Ele próprio procedeu a estudos minuciosos nos domínios da física, biologia, psicologia e linguagem. Como é típico nos melhores filósofos, era muito rigoroso na justificação das suas opiniões e meticuloso na ponderação dos argumentos contrários, evitando chegar a conclusões precipitadas. Entre as disciplinas filosóficas que desenvolveu contam-se a lógica, a metafísica, a ética, a filosofia política, e a estética. Pode mesmo dizer-se que foi o fundador da Lógica, começando o seu estudo praticamente do nada. Se bem que limitada e com várias deficiências, a teoria lógica aristotélica foi o resultado de um trabalho notável de inteligência, de tal modo que, no essencial, se manteve incontestada e estudada até ao final do séc. XIX. Aristóteles procurou determinar as formas válidas de inferência, isto é, as inferências cuja forma nos impede de chegar a uma conclusão falsa a partir de premissas verdadeiras (ver premissa). E estabeleceu um conjunto de regras para identificar as boas e evitar as más inferências (ver lógica aristotélica). Organon é o nome dado ao conjunto das suas obras de lógica. Na Metafísica, uma das suas obras mais marcantes (assim chamada apenas porque foi publicada a seguir à Física)Aristóteles descreve esta disciplina como o estudo do “ser enquanto ser”, isto é, o estudo do ser em geral, independentemente do modo particular como as coisas são. Muitos dos conceitos metafísicos ainda hoje utilizados foram introduzidos por si. Em Ética a Nicómaco (assim chamada por ter sido dedicada a seu filho Nicómaco), Aristóteles argumenta, entre outras coisas, a favor da ideia de que as virtudes morais, como a generosidade e a honestidade, não são inatas. Só o hábito de evitar excessos de qualquer tipo nos pode tornar pessoas virtuosas. Por isso, a virtude adquire-se com a prática. Sobre filosofia política escreveu a Política e sobre estética a Poética, entre outros livros. (Aires Almeida).


Retirado de https://criticanarede.com/dicionario.html#a



A origem da filosofia

     Foi, com efeito, pela admiração que os homens, assim hoje como no começo, foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias, e progredindo em seguida pouco a pouco até resolverem problemas maiores: por exemplo, as mudanças da Lua, as do Sol e dos astros e a génese do Universo. Ora quem duvida e se admira julga ignorar: por isso, também quem ama os mitos é, de certa forma, filósofo, porque o mito resulta do maravilhoso. Pelo que, se foi para fugir à ignorância que filosofaram, claro está que procuraram a ciência pelo desejo de conhecer, e não em vista de qualquer utilidade. Testemunha-o o que de facto se passou. Quando já existia quase tudo que é indispensável ao bem estar e à comodidade, então é que se começou a procurar uma disciplina deste género. 


Aristóteles, Metafísica, int. e notas de Joaquim de Carvalho, Coimbra, Atlântida, 1969, pp. 11-12.

Filosofia - porquê e para quê

 Uma razão importante para estudar filosofia é o facto de esta lidar com questões fundamentais acerca do sentido da nossa existência. (...)

      Persistir numa existência rotineira sem jamais examinar os princípios na qual esta se baseia pode ser como conduzir um automóvel que nunca foi à revisão. Podemos justificadamente confiar nos travões, na direção, e no motor, uma vez que sempre funcionaram suficientemente bem até agora; mas esta confiança pode ser completamente injustificada: os travões podem ter uma deficiência e falharem precisamente quando mais precisarmos deles. Analogamente, os princípios nos quais a nossa vida se baseia podem ser inteiramente sólidos; mas, até os termos examinado, não podemos ter a certeza disso.  (...)
   Outra razão para estudar filosofia é o facto de isso nos proporcionar uma boa maneira de aprender a pensar mais claramente sobre um vasto leque de assuntos. Os métodos do pensamento filosófico podem ser úteis em variadíssimas situações, uma vez que, ao analisar os argumentos a favor e contra qualquer posição, adquirimos aptidões que podem ser aplicadas noutras áreas da vida. (...)
        Outra justificação ainda para o estudo da filosofia é o facto de, para muitas pessoas, esta ser uma atividade que dá imenso prazer. (...)

Nigel Warburton.(1998). Elementos Básicos de Filosofia. Lisboa: Gradiva, p. 24-25 (sublinhados nossos)

  Sobre esta última ideia, a de que o estudo da filosofia é uma atividade que dá prazer, vamos acrescentar mais algumas ideias. De que prazer se trata? Podemos dizer que é o prazer associado ao conhecimento e à descoberta. É o prazer ligado à paixão pelo saber, quer se chame filosofia quer se chame ciência. Neste sentido, tanto a filosofia como a ciência dão resposta ao desejo de conhecer. A este propósito acrescentamos um texto bem mais antigo, de Aristóteles, filósofo grego do século IV a.C.. 


      «Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer: uma prova disso é o prazer das sensações, pois, fora até da sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas.»

Aristóteles, Metafísica, introdução e notas de Joaquim de Carvalho, Coimbra, Atlântida,1969, p.3.

Filosofia - porquê e para quê

 Mensagem da Diretora Geral da UNESCO, Audrey Azoulay, por ocasião do Dia Mundial da Filosofia 2018



A filosofia alimenta-se da necessidade que o ser humano experimenta de compreender o mundo que o rodeia e de encontrar princípios para nele conduzir a sua ação. É uma necessidade ancestral mas sempre viva: perto de 3 000 anos depois da emergência desta disciplina na China, no Médio-Oriente e na Grécia antiga, as questões da filosofia não perderam nada da sua pertinência e da sua universalidade – bem pelo contrário! Num mundo cada vez mais complexo, em que reina a incerteza, em que as evoluções societais e as revoluções tecnológicas confundem as nossas referências, em que os desafios sociais e políticos a assinalar são imensos, a filosofia permanece um recurso muito precioso – é ao mesmo tempo um espaço de retiro, de desaceleração e uma luz susceptível de nos orientar. A filosofia ajuda-nos, com efeito, a sair da tirania do instante e a perspetivar os desafios que se nos colocam com o recuo histórico e o rigor intelectual necessários. Entrega-nos chaves de interpretação e sintetiza numa linguagem acessível os saberes fragmentados em especialidades inumeráveis – biologia, genética, informática, ciências cognitivas, direito, economia, ciências políticas… Por detrás destes saberes especializados, ela consegue distinguir os desafios propriamente humanos (…). A filosofia ajuda-nos também, precisamente, a refletir sobre as normas que fundam a nossa vida coletiva: ela ocupa-se das questões da justiça, da paz, da ética, da moral. Estas questões são de uma atualidade escaldante quando os progressos realizados no domínio da inteligência artificial parecem redefinir até as fronteiras do humano. 
Enfim, a filosofia implica um percurso e uma atitude particulares: a abertura ao diálogo e à troca de argumentos, a disposição a acolher o que parece estranho e diferente, a coragem intelectual de interrogar os estereótipos e de desconstruir os dogmatismos. Por todas estas razões, a filosofia é um recurso indispensável para viver em conjunto e para toda a sociedade livre e pluralista – ou que aspira a sê-lo. (…).
Neste Dia Mundial da Filosofia, que a palavra célebre de Sócrates - «Tudo o que sei é que nada sei» - seja um estímulo para progredir em conjunto alguns passos na imensidade vertiginosa do saber.

Retirado de http://unesdoc.unesco.org/images/0026/002661/266101f.pdf, consulta a 10 de novembro, 2018 (tradução do original francês e sublinhados da nossa responsabilidade)

Todos somos filósofos? - Questões filosóficas

Que tipo de coisas discutem os filósofos (...)? Muitas vezes examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente "o sentido da vida": questões acerca da religião, do bem, do mal, da política, da natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos outros assuntos. Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra "dever"? Estas são questões filosóficas. Ao examinar as nossas crenças, muitas delas revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas - uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas.


Nigel Warburton.(1998). Elementos Básicos de Filosofia. Lisboa: Gradiva, p.20-21 (sublinhados nossos)

Todos somos filósofos? - António Aleixo

Eu não tenho vistas largas 

Nem grande sabedoria

Mas dão-me as horas amargas

Lições de filosofia


Quadra do poeta popular António Aleixo (1899-1949) 

Todos somos filósofos? - Questões filosóficas

              

      A maior parte das pessoas, num ou noutro momento da sua vida já se interrogou a respeito de questões filosóficas. Por que razão estamos aqui? Há alguma demonstração da existência de Deus? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz que certas ações sejam moralmente boas ou más? Poderemos alguma vez ter justificação para violar a lei? Poderá a nossa vida ser apenas um sonho? É a mente diferente do corpo, ou seremos apenas seres físicos? Como progride a ciência? O que é a arte? E assim por diante.


       Nigel Warburton.(1998). Elementos Básicos de Filosofia. Lisboa: Gradiva, p. 23.